Mães do povo
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de maio de 2017
por Paulo Briguet 
Minha mãe acordava muito cedo, antes de nascer o dia. Morávamos em um pequeno apartamento em Campos Elíseos, bairro central de São Paulo. Para não acordar os filhos e o marido, deixando que eles descansassem mais um pouco, ela se trocava no escuro. Pegava dois ou três ônibus para dar aulas de história numa escola da periferia. Um dia, Aracy percebeu um burburinho entre os alunos. Foi quando notou: no escuro, tinha colocado pés de sapato de cores diferentes. "Vocês não sabem que agora é moda?", brincou ela e continuou sua aula sobre a Mesopotâmia. Essa história entrou para o folclore da família. Hoje minha irmã também é professora, e também acorda cedo, seguindo a tradição.
A irmã de minha amiga é outra que acorda cedo. Ela trabalha como orientadora numa escola da nossa região. Certo dia, leu uma das minhas crônicas sobre mãe; gostou tanto que decidiu fazer cópias do texto e distribuí-las entre as colegas da escola. As professoras, certamente preocupadas com assuntos de maior importância, não deram muita bola para a crônica. Nem todas leram, e as que leram não parecem ter apreciado a minha abordagem sobre o assunto. A irmã de minha amiga achou várias cópias do texto pisoteadas pelo chão da escola. Sem dúvida, uma impiedosa forma de crítica literária.

Mas então aconteceu o inesperado. Uma das senhoras que fazem a limpeza na escola viu a crônica no chão e se interessou pelo texto. Leu-a em voz alta para as colegas de serviço. Elas ouviram com atenção as palavras deste pobre cronista. Algumas choraram; outras falaram com carinho de seus filhos; outras ainda homenagearam suas mães, trabalhadoras como elas. Uma das funcionárias resolveu colar a crônica na parede da salinha do café, para que todas pudessem se lembrar de suas mães todos os dias.
Dizem que homem não chora, mas confesso a você, meu querido oitavo leitor: quando minha amiga me contou essa história, eu chorei. Chorei porque me lembrei de minha mãe se trocando no escuro para não nos acordar; chorei porque infelizmente algumas mães intelectualizadas parecem ter perdido o real sentido do milagre chamado maternidade; chorei pela honra de ter o meu trabalho lido e reconhecido por mulheres trabalhadoras, mulheres guerreiras, mães do povo. Para mim, isso equivale a um prêmio literário.
Aracy sai da sala dos professores, vestida com o seu jaleco rosa, e vai até a salinha do café das senhoras da limpeza. Durante alguns instantes, ela lê a crônica do filho, colada na parede. Depois, com um sorriso franco e lágrimas nos olhos, ela se dirige até a mulher que achou o texto no chão. Elas se abraçam, e Aracy diz:
Obrigada, minha amiga.
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