Iete no Céu

Ontem fui dormir com as palavras de um sábio ecoando em minha mente: "O perdão é a lei geral que estrutura o universo. O permanente resgate do finito pelo infinito, que fundamenta toda a existência física, assim se traduz em escala humana".
Palavras que eram um aviso.
De manhã, no preciso momento em que o telefone costumava tocar sempre quando meu pai era vivo, recebo a notícia de que a Tia Iete acabava de morrer.
O modo como ela partiu traduz o que foi a existência de Maria Izelter Fernandes Marcos, por todos conhecida como Iete. Na quinta-feira, sua irmã Marlene, o anjo que cuidou dela nos últimos anos, foi acordá-la. Iete simplesmente não abriu os olhos. Ouso não chamar o que aconteceu a ela de morte, mas de dormição.
Ela, que durante seus 80 anos de vida serviu e fez o bem a todos que encontrou, deixava suavemente a existência física, como se não quisesse incomodar demais. É difícil imaginar alguém que tenha passado mais delicadamente pela vida.
Iete foi uma segunda mãe para todos nós da família. Com o coração pleno de bondade e humildade, foi professora primária e ensinou gerações de crianças a ler e escrever. Não se casou, não teve filhos. Viveu unicamente para os irmãos e para os sobrinhos, que amava com uma intensidade que só era vagamente perceptível em seus olhos meigos. "O mais importante na vida é invisível", já ensinava Exupéry.
Sim, fiquei triste com o adeus de Tia Iete. Sim, dói. Mas, ao mesmo tempo, uma voz silenciosa me diz que é também necessário alegrar-se: afinal, neste exato momento, ela agora está abraçada aos irmãos na eternidade.
Iete, agora você pode conversar outra vez com o Paulo, a Ruth, a Ebe, o Dinho! Agora você pode pedir a bênção de seus pais Antônio e Brasilissa! Agora você pode conversar em espanhol e cantar velhas canções da Múrcia com todos eles! Parece que estou vendo o seu sorriso de agradecimento. Enfim você se tornou aquilo que foi na Terra para todos nós: um anjo de luz.
Ficarei triste por não poder encontrá-la mais em Mirandópolis; mas um dia, se Deus me permitir ser o menor e o último a entrar no Reino, conhecerei a sua morada eterna, que imagino muito parecida com a casa em frente ao Fórum, onde vivemos eu, Fernanda, Beto, Renato, Marco, Luís, Júlio tantos momentos mágicos de nossa infância. Como esquecer as balinhas de banana, a tubaína e a Coca-Cola meio sem gás, o relógio da sala de jantar, os sete volumes da enciclopédia "Curiosidades"?
Por tudo isso eu sou grato, Tia Iete. E peço desculpas se alguma vez não lhe dei a atenção e o carinho merecidos. É estranho pedir desculpas a alguém que era a própria definição de perdão, mas o faço mesmo assim, com o coração nas mãos. Ouso terminar esta despedida parafraseando os versos de Manuel Bandeira (poeta que Paulo tanto amava):
"Imagino Iete entrando no céu:
Licença, meu santo!
E São Pedro bonachão:
Entra, Iete. Você não precisa pedir licença".





