Feliz aniversário, pai
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
por Paulo Briguet 

Pai,
Hoje você faria 76 anos. Nasceu um dia após o aniversário de São Paulo, e por isso recebeu o nome do grande apóstolo dos povos.
Temos o mesmo nome, mas não é só isso. Compartilhamos também o mesmo tipo de olhar, o mesmo gosto por silêncios, a mesma admiração por Manuel Bandeira e Nelson Rodrigues, a mesma paixão pelos grandes escritores russos, a mesma origem remota no Mar Menor da Espanha. Levo comigo o velho exemplar do Novo Testamento em que você escreveu, na folha de rosto: "Paulo Lourenço. Domingo ensolarado, 12 de fevereiro de 1961". Você tinha apenas 20 anos, pai, serviria o Exército naquele ano.
Que saudade das suas histórias de quartel! Lembro-me de todas as patentes: soldado, cabo, sargento, tenente, capitão, major, tenente-coronel, coronel, general. Lembro-me também do bar, na Avenida São João, em que você comemorou a dispensa do Exército. Certa vez, um sargento o pegou lendo um livro quando você estava de guarda. Resultado: uma semana sem poder sair do quartel.
Qual era mesmo o livro, pai?
Com uma frequência cada vez maior, tem acontecido de eu passar diante de um espelho e enxergar você. Sim, o tempo nos torna cada vez mais semelhantes, quase sósias. Às vezes eu acordo e acho que escutei você tossindo a sua tosse de fumante na varanda. Engano: era eu mesmo que tossia no sonho, embora nunca tenha fumado. Lembro-me de montar guarda no quarto do hospital, para evitar uma incerta da enfermeira, enquanto você fumava um cigarro apaziguador. Quem poderá condená-lo por isso, pai?
Eu espero que você já tenha conversado bastante com Manuel Bandeira e com Nelson Rodrigues aí no Céu. Talvez os mestres estejam ao seu lado agora, espiando estas palavras. Peça a eles que não reparem na minha indigência literária; que leiam estas linhas com os olhos do coração. Pois é o coração que está escrevendo agora. Mais do que meu pai, você é meu modo de ser. Por isso, até hoje me emociono quando vejo que o Pedro tem mãos iguais às suas, como se fossem a mão da mesma pessoa em diferentes frações do tempo.
Na terça-feira choveu, pai. Cheguei em casa após uma sessão na nossa dentista, a Dra. Suely ela sempre fala em você, sempre , abri a janela e vi que estava chovendo na tarde ensolarada. Sol e chuva, casamento de viúva. Chuva e sol, casamento de espanhol. Imediatamente se formou um arco-íris sobre a cidade. O curioso é que o arco-íris termina exatamente na Toca do Bode, onde eu gostaria muito de conversar com você...
No Livro do Gênesis, o arco-íris é o sinal que Deus envia a Noé depois do Dilúvio, como símbolo da aliança eterna com os homens. Deus firmou também esta aliança entre nós, pai. Quando eu escrevo, você também escreve; somos iguais à união entre a água da chuva e a luz do sol. Uma aliança que permanecerá enquanto meu coração ainda estiver batendo dentro da saudade que sou eu.
Meu pai, meu modo de ser.
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