Eu sou o Judas
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de abril de 2018
Paulo Briguet 

O Padre Romão me convidou para ser um dos 12 apóstolos na Missa de Lava-Pés. Aceitei o convite e tive a honra de sentar-me ao lado de pessoas como a Irmã Pushpa, o anjo que veio da Índia para ajudar as crianças pobres no União da Vitória. Também lá estavam o nosso querido e sorridente José (faz-tudo da Paróquia São Vicente de Paulo), uma representante das filhas de Madre Leônia, irmãos católicos com forte atuação comunitária, um jovem angolano, um jovem haitiano, uma jovem americana, uma jovem mexicana, uma jovem cabo-verdiana, um jovem refugiado cristão da Síria.
Naquela noite santa, ao me apresentar à comunidade, o padre foi gentil. Disse que eu escrevo "artigos marcados pela fé cristã". Fico feliz que ele pense assim, pois é de fato um dos objetivos do meu trabalho. Mas a escolha para estar entre os Doze gerou alguns comentários maliciosos. Já houve aí quem dissesse que sou o Judas. Não o Judas Tadeu, mas o Iscariotes. Aquele das 30 moedas de prata (de quem Jesus também lavou os pés).
Sim, tem gente achando que este cronista de sete leitores é um traidor. Traidor das generosas causas da justiça social e da revolução. Traidor do sonho utópico do socialismo. Traidor do paraíso na Terra prometido por Lênin, Stálin, Trotsky, Gramsci e Che Guevara. Se o fato de ter um dia acreditado nessas mentiras e hoje combatê-las me torna um traidor, então de fato eu sou o Judas.
Confesso que na minha vida eu já pensei como Judas. Não cheguei a ser um ladrão como ele, mas já faltei com a verdade e feri amigos em nome da "causa". Da mesma forma que Judas, em certa época de minha vida, ao ver alguém usar um frasco de perfume caro para ungir os pés de Cristo, eu certamente diria: "Por que não se vendeu este bálsamo por trezentos denários e não se deu aos pobres?"
Diante desse falso "amor aos pobres", uma das explicações para a traição de Judas, diz-nos emérito o papa Bento XVI, é de ordem messiânica: "Judas teria se decepcionado ao ver que Jesus não incluía em seu programa a libertação político-militar de seu próprio país". Movidos pela mesma decepção estavam aqueles que escolheram Barrabás, e não Jesus, para libertar durante a Páscoa. Afinal, o nome Barrabás é um título messiânico (quer dizer "Filho do Homem") e representa a esperança de uma revolução política na Jerusalém ocupada pelos romanos.
Tudo bem, companheiros. Eu sou o Judas. Mas, se não entendermos o fato de que, em algum momento da vida, todos nós o somos, não compreenderemos o coração da mensagem de Jesus. Eu fui o Judas quando acreditava que a tomada do poder político era o caminho para a redenção da humanidade; hoje, grande parte do meu trabalho consiste em reparar esse erro. O que vocês chamam de traição, eu chamo de arrependimento.
Obrigado, padre, por lavar os pés deste pecador. Mais uma vez, eu vi que o perdão de Deus é a lei estrutural do universo.
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