Eu não sou digno
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
por Paulo Briguet 

Uma das mais belas orações da liturgia católica saiu da boca de um pagão. É a súplica que os fiéis fazem antes de comungar: "Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo".
Essa frase, com uma pequena alteração, foi dita a Jesus pelo centurião romano cujo servo estava doente. Embora fosse conhecido como um bom homem entre os judeus de Cafarnaum, o centurião pertencia às hostes do exército inimigo. Era um militar, cujo cargo corresponderia hoje, mais ou menos, ao de um capitão ou delegado de polícia. A humildade desse homem, porém, era tão grande que fez ganhar um elogio do próprio Jesus: "Em verdade vos digo: não encontrei fé semelhante em ninguém de Israel" (Mt 8,10).
É importante observar que o próprio Jesus se ofereceu para ir à casa do pagão, mas este, julgando-se indigno de tal presença régia, pede ao Filho do Homem que apenas dirija um átimo de seu pensamento ao servo doente.
Agora, imaginemos que o centurião fosse um homem vaidoso. Que ele não apenas permitisse a visita de Jesus, como ficasse deslumbrado a ponto de pedir mais. Vamos supor que o militar romano, após a cura do servo, solicitasse a Jesus uma radical mudança de comportamento. Para provar aos habitantes de Cafarnaum que ele era um homem realmente bom, o centurião pediria ao próprio Jesus que passasse a se comportar como um militar romano. "Mostre a eles que o Messias pode ser igual a um centurião, Senhor! Mostre a eles como sou digno! Mostre a eles que o Senhor é igual a mim!"
Pois é exatamente o que fazem hoje aqueles que sequestram e ultrajam a Pessoa de Jesus para torná-lo um "bom companheiro" de causas políticas, ideológicas e sociais. Da mesma forma que os teólogos "da libertação" querem um Jesus travestido de Che Guevara, os apóstolos da vã guarda, com seu indisfarçável complexo de vira-laico, desejam utilizar a imagem de Deus Filho como garoto-propaganda de seu comportamento. Isso nada tem de original: é tão antigo quanto o cristianismo. Em arte, não há nada mais previsível do que o velho clichê biblicamente chamado de "escândalo".
Jesus encontra várias pessoas sofredoras ao longo de seu caminho. Alguns padecem de males como a cegueira, a lepra e possessão demoníaca. Outros são pecadores como todos nós: a prostituta, a adúltera, o publicano. A todos ele cura e perdoa. Mas, aos pecadores, exige um compromisso: "Vai e não peques mais". Aos que pecam mas, ainda assim, estão muito orgulhosos de si mesmos, ele usa palavras terríveis: "Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno?" (Mt 23,33)
Tente imitar Jesus, mas não espere que ele imite você. Ele não é uma mulher transgênero, da mesma forma que não é um centurião, da mesma forma que não é um cronista de jornal. Rainha do Céu não é ele, é Maria. Ele não se reduz a nenhuma das nossas condições sociais ou individuais. Ele não vai copiar os seus desejos, os seus hábitos, as suas ideias, os seus desesperos. Ele apenas dirá uma palavra. Você está preparado para ouvi-la?
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