Eu fui Jesus

Rogemar Monteiro, 49 anos, é mais conhecido como Roger. Podemos defini-lo de muitas formas: londrinense de certidão e de coração, morador da Vila Recreio, católico desde a infância, zelador da Clínica Odontológica da UEL, corintiano, goleiro amador. Mas existe um fato sobre o Roger que se sobrepõe aos demais:
Eu já fui Jesus.
Por quatro vezes em 2007, 2008, 2009 e 2015 ele representou o papel central no "Auto da Paixão de Cristo", apresentado anualmente em Londrina, na Vila Portuguesa. O espetáculo da Sexta-Feira Santa, com três décadas de tradição, chega a reunir 25 mil pessoas. Não se tem notícia de uma apresentação teatral com um público maior na história da cidade.
Eu disse que Roger é católico desde criança. Mas houve um período, durante a adolescência, em que ele se afastou um pouco da Igreja. Nessa época, um de seus melhores amigos, o Paulo, ficou gravemente doente. Pouco antes de morrer, Paulo chamou Roger e disse:
Se um dia eu não estiver mais aqui, continue o meu trabalho na Igreja.
Roger atendeu o último pedido do amigo. Começou a frequentar as reuniões do grupo que encenava a Paixão de Cristo. Começou como figurante, apenas mais um homem do povo de Jerusalém. Depois, passou a interpretar um soldado romano. Em seguida, foi "promovido" a centurião (chefe de guarda), no qual ficou por cinco anos. Até que um dia lhe pediram para fazer o seu primeiro papel com fala: o do governador Pôncio Pilatos. Roger, ao contrário do personagem, não lavou as mãos, e interpretou Pilatos por três anos, com desenvoltura.
Até que um dia os colegas do grupo decidiram:
Você vai fazer o papel de Jesus.
Quem, eu?
Sim, ele. E claro que foi difícil. Roger diz ter um temperamento explosivo, turrão. Para complicar, é tímido. Se como Pilatos ele precisava decorar quatro páginas de fala, agora era preciso memorizar as 24 páginas do roteiro. Afinal, Cristo é o centro de tudo da peça, da história, do universo.
Viver Jesus mudou a vida de Roger. Dez minutos antes de entrar em cena, ele recebia a bênção de um padre e pedia para ficar completamente sozinho. A partir daquele instante, ele não era mais Roger. "Vivo, não mais eu, mas é Cristo que vive em mim." (Gálatas 2,20)
Até hoje as pessoas o cumprimentam na rua:
Oi, Jesus!
Roger, com humildade, diz que não teria sido possível representar a Cristo sem o apoio de amigos, familiares, padres e do público. No Sermão da Montanha, ele sentia o apoio e o carinho das pessoas. No Horto das Oliveiras, ele passava pela angústia cósmica do Filho. Na Via Sacra, os ombros suportavam o mundo. E, na hora da morte de Jesus, fazia-se um silêncio tão grande que era possível ouvir as pessoas chorando na multidão. Nessa hora, sempre soprava um vento. Era o Espírito Santo.
E aquele vento sopra até agora.
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