Estudantes em greve hostilizam repórter

Nesta quarta-feira (17), durante reportagem ao vivo para a TV Tarobá, a jornalista Lívia de Oliveira foi hostilizada por estudantes que "ocupam" a Reitoria da Universidade. Chamada no ar de "mentirosa", "golpista" e outros adjetivos impublicáveis, a repórter diz ter chegado ao limite da paciência, depois de ter sido agredida verbalmente em três ocasiões nos últimos dias. Note-se que Lívia despertou a fúria dos invasores da UEL por ter feito referência aos estudantes contrários ao movimento. Formada na UEL, onde atualmente é aluna de mestrado, ela se sentiu ofendida como cidadã, jornalista e estudante. Veja a seguir a entrevista de Lívia Oliveira à #AvenidaParaná:
Avenida Paraná: Como começaram as hostilidades?
Lívia Oliveira: O primeiro episódio foi logo no início da ocupação, em que os estudantes não queriam gravar entrevista, nos chamaram de golpistas e disseram que só concordavam em dar entrevistas ao vivo, porque do contrário nós "distorceríamos" toda a situação. Ao entender que eles não concordariam em gravar entrevistas, rapidamente me dirigi ao carro da emissora e deixei o local, até porque o cinegrafista já tinha feito as imagens de que precisávamos.
Avenida Paraná: Ao que parece, o clima já não era bom. De que maneira ficou pior?
Lívia Oliveira: O segundo episódio ocorreu quando as ocupações começaram a ganhar campo e os estudantes decidiram sair pelo campus e conseguir a adesão de outros alunos ao movimento. Fizeram uma manifestação inicial na Central de Salas do CCB (Centro de Ciências Biológicas). Como, pela experiência anterior, eu imaginei que eles não quisessem conceder entrevistas, sentei-me em um banco, para aguardar enquanto o cinegrafista fazia imagens da manifestação. Enquanto eu estava ali sentada, conversando com a diretora do Centro, um professor se aproximou e começou em voz alta a fazer uma série de acusações, dizendo que a mídia distorce os fatos, que a mídia é golpista. Ele usou várias palavras pejorativas para definir o trabalho da imprensa. Eu respondi que sentia muito, que era apenas uma trabalhadora fazendo uma reportagem. Disse a ele também que poderíamos gravar uma entrevista, mesmo com críticas ao trabalho da imprensa; do contrário, que me deixasse trabalhar em paz. Não posso responder pelo trabalho de outros veículos de comunicação e outros profissionais. Mesmo assim, o professor continuou fazendo as críticas e, com palavras de ordem, incitou os estudantes que estavam ali. De repente, eu me vi cercada por manifestantes e por esse professor que falava muito alto. Um servidor sugeriu que eu me retirasse do local para evitar que algo mais grave acontecesse. Eu disse que não me retiraria do local; estava ali trabalhando como jornalista, em um ambiente público. Além disso, fui aluna da UEL na graduação e na especialização e atualmente sou aluna da UEL no mestrado. Tinha o direito de estar ali como cidadã, como profissional de jornalismo e como aluna da universidade. Quando comecei a me defender e peguei o telefone para que entrassem em contato com o Sindicato dos Jornalistas, alguns manifestantes se sensibilizaram, o comando de greve foi chamado, e até uma moça que se apresentou como feminista me defendeu e disse que aquilo era um absurdo. Alguns integrantes do movimento se posicionaram a meu favor. Posteriormente, o professor que iniciou a confusão me enviou um e-mail com um pedido de desculpas, dizendo que naquela manhã os "ânimos estavam muito exaltados". Aceitei as desculpas.
Avenida Paraná: E hoje, o que aconteceu?
Lívia Oliveira: Hoje aconteceu um episódio que definitivamente acabou com a minha paciência. Foi na Reitoria ocupada, durante uma entrevista ao vivo que foi solicitada com antecedência aos líderes do movimento. O porta-voz da ocupação sabia com antecedência as perguntas que seriam feitas ao vivo. No momento da reportagem ao vivo em que eu comecei a informar sobre os estudantes contrários à ocupação, que estavam fazendo limpeza no campus, eles começaram a se exaltar. Senti algo tocando nas minhas costas e na minha cabeça. Era uma estudante exibindo um cartaz contra a Rede Globo. Ao vivo, eu pedi a ela que retirasse o cartaz, porque fazia referência a uma emissora concorrente e eu não gostaria de misturar as coisas. Ela saiu e eu retomei o assunto sempre ao vivo. Quando voltei a falar sobre os estudantes contrários à ocupação, isso parece ter inflamado alguns estudantes. Começaram a gritar: "Mídia golpista!" Eu informei aos telespectadores que eles estavam fazendo críticas à imprensa, chamando-a de golpista. Conforme eu falava sobre os conflitos entre os grupos contrários e favoráveis à ocupação, eles começaram a me chamar de "mentirosa", "golpista" e também nomes de baixo calão. Mas o que me ofendeu mesmo foi ter sido chamada de mentirosa. Eu estava ali cumprindo a minha função, falando a verdade, mostrando os diversos lados da notícias, por isso me senti extremamente ofendida. Foi uma tentativa de me constranger publicamente, de cerceamento do meu trabalho. Eles claramente quiseram dificultar que a informação correta fosse levada ao público.
Avenida Paraná: Você já havia passado por situação semelhante na sua vida profissional?
Lívia Oliveira: Tenho 16 anos de jornalismo. Já passei por outras situações conflituosas, já tive enfrentamentos com pessoas que tentaram interferir no trabalho, mas eram situações com pessoas que eu não esperava encontrar dentro de uma universidade. No campus, eu esperava encontrar um debate de ideias, um debate filosófico, dentro de um nível elevado. Já cobri manifestações com nível de tensão muito alto, em que tentaram agredir cinegrafistas, já houve pessoas que tentaram me impedir de fazer determinadas entrevistas. Mas dentro de uma universidade, no momento em que se tenta debater o que é melhor para a UEL, eu não esperava encontrar esse tipo de reação. Isso me surpreendeu. Agora, de mentirosa realmente eu nunca fui chamada antes.
Avenida Paraná: Que atitudes você pretende tomar?
Lívia Oliveira: Já procurei o Sindicato dos Jornalistas, contei o que aconteceu. Espero que o sindicato entre em contato com os líderes do movimento para que se faça uma retratação pública. Fui ofendida publicamente, sofri assédio moral publicamente. Até aqui, aceitei as desculpas em caráter particular. Não tenho o sentimento de indignação em relação a todos os estudantes; alguns foram educados. Mas infelizmente minha paciência chegou ao limite. Fui ofendida publicamente, quero um pedido público de desculpas.






