Imagem ilustrativa da imagem Espírito olímpico
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Desde o início fui contra as Olimpíadas no Brasil. Embora nunca tenha concordado com a realização dos Jogos em nosso sofrido país, reconheço que agora essa discussão é inútil. Resta-nos rezar para que nada dê muito errado.

Meu plano pessoal era me afastar ao máximo do clima olímpico, mergulhando fundo nos meus livros e no meu trabalho. A ideia era manter a televisão desligada e ignorar o noticiário esportivo o quanto fosse possível. Por 20 dias, o Brasil estaria torcendo, e o zé-mané aqui escrevendo.

Ilusão!

É claro que o plano veio abaixo. Vou assistir aos Jogos Olímpicos. Quem me convenceu não foi nenhum político, nenhum esportista, nenhum aficionado, nenhum jornalista, nenhum sociólogo, nenhum antropólogo, nenhum especialista, nenhum publicitário, nenhum intelectual. Foi uma criança.

Pedro, aos 6 anos, é um pequeno Barão de Coubertin. Nos últimos dias, seu entusiasmo olímpico ascendeu a níveis estratosféricos. Ele acorda Olimpíadas, come Olimpíadas, bebe Olimpíadas, dorme Olimpíadas, sonha Olimpíadas, pensa Olimpíadas, brinca Olimpíadas, ri Olimpíadas, chora Olimpíadas, estuda Olimpíadas, lembra Olimpíadas, profetiza Olimpíadas, desenha Olimpíadas, vive Olimpíadas.

Em nossa casa, qualquer objetivo cotidiano vira tocha, bastão, bandeira, luva, tênis, rede, cesto, gol, raia, arco, flecha, florete, taco, raquete, peso, dardo, medalha, medalha, medalha.

Toda banqueta é pódio. Toda sala é quadra. Todo jardim é campo. Toda parede é placar. Todo corredor é pista. Todo lugar é vila. Todo quarto é estádio. O Igapó é a Baía de Guanabara.

Quem sou eu para estragar o entusiasmo de um menininho?

Afinal de contas, preciso lembrar que a minha vida também pode ser narrada conforme as Olimpíadas. Há um tesouro de recordações guardadas nos arquivos Montreal 1976 (Nadia!), Moscou 1980 (a lágrima do ursinho Micha), Los Angeles 1984 (maratona), Seul 1988 (adeus, Filosofia na USP), Barcelona 1992 (República da Humaitá), Atlanta 1996 (Clube da Bossa), Sidney 2000 (bug do milênio), Atenas 2004 (Quinta Sem-Lei), Pequim 2008 (a última que meus pais viram), Londres 2012 (a primeira que Pedro viu). Sei exatamente onde estava e o que fazia em cada um desses Jogos. Você também sabe, não sabe?

Quem não se emocionou com a maratonista suíça Gabriella Andersen cambaleando até a linha de chegada em 1984? A cruz branca da Suíça e a cruz vermelha dos socorristas que só a atenderam depois da linha da chegada (pois se tocassem na atleta, ela seria desclassificada) me fazem hoje pensar em outra Cruz. Aquela que nós somos.

Ali estão nossas alegrias, dores, angústias e glórias. Ali estão nossos limites: até onde podemos correr, saltar, nadar, mergulhar, lutar, suportar, vencer, perder, nascer, morrer, ressuscitar.

Não cairei na tentação de falar sobre as Olimpíadas diariamente nesta coluna – há colegas muito mais preparados que eu para a função – mas, na condição de jornalista, e principalmente na condição de pai, não posso ignorar que os Jogos Olímpicos do Rio começam amanhã. Declaro abertos os meus olhos e ouvidos.

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