Encontro na chuva
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de março de 2018
por Paulo Briguet 

É Semana Santa e eu estou debaixo de uma marquise, esperando a chuva passar. Tenho mil assuntos para resolver, uma crônica para escrever, mas estou sem guarda-chuva, e a água não para de cair. Abro o Dom Quixote e fico assim, entre as peripécias do Cavaleiro de Triste Figura e o espetáculo da chuva. O cheiro e a dança da água no chão me trazem lembranças de menino. Espero, leio, penso. Por algum motivo estou aqui. Por algum motivo Deus me colocou aqui.
De repente, olho para lado e vejo minha amiga. Há tempos não a encontrava. Ela surgiu não sei de onde, feito uma aparição. Sorri, mas o seu sorriso está repleto de dor.
Tudo bem?
Não, não está tudo bem, Paulo.
O coração de minha amiga está pequeno. Há oito meses, ela perdeu o amado, ao final de uma longa e dolorosa guerra contra a doença. Como é difícil atravessar esse abismo temporal que separa a dor brutal da perda e a dor suave da saudade!
Olho para ela, para suas lágrimas, para sua voz dissonante na tarde chuvosa. Fecho o livro do Cavaleiro de Triste Figura, que ainda estava aberto numa de suas aventuras insanas. Há quem ria muito lendo Dom Quixote; às vezes eu choro.
Mas não é hora de chorar, é hora de falar. Se Deus me colocou debaixo desta marquise, foi por algum motivo. São mais ou menos três horas.
"Era já mais ou menos a hora sexta quando o sol se apagou, e houve treva sobre a terra inteira até à hora nona, tendo desaparecido o sol. O véu do Santuário rasgou-se ao meio, e Jesus deu um forte grito: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. Dizendo isso, expirou." (Lc 23, 44-46)
Então eu penso nos três dias que separam a hora da treva e a primeira palavra que Jesus ressuscitado disse aos discípulos: SHALOM.
Falo sobre isso à minha amiga, e gosto de achar que um pequeno ponto luminoso surgiu em seus olhos. Mais do que um simples desejo de paz, a palavra SHALOM significa alegria perfeita, consolação infinita, vida eterna. Nós aguardamos exatamente aí: entre o espírito que se entrega no Calvário e o reencontro com Deus na plenitude.
Eu sei que você passou ou está passando agora por uma dor muito semelhante à de minha amiga. Eu mesmo a sinto várias vezes. Dias como o de hoje Sexta-Feira da Paixão fazem doer em nós a ferida de viver. A ferida de nossas perdas, de nossas ausências, de nossas angústias, de nossa solidão. Isso tem um nome simples e definitivo: CRUZ. Cada um de nós é uma cruz.
E, no entanto, a chuva irá passar. O Cavaleiro de Triste Figura voltará para casa. Guarde no seu coração uma certeza: as trevas da Paixão se transformam na luz da Páscoa. Até lá, nós esperaremos como a Mãe de Jesus no Sábado Santo esse imenso Sábado que é nossa vida. Pois a palavra final não é uma abstração, não é uma energia, não é um movimento da natureza, não é um fenômeno, não é um processo. A palavra final é uma Pessoa: "Eu sou a ressurreição e a vida."
Espere e você encontrará. SHALOM.
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