Drummond, em um belíssimo poema, define o trabalho do escritor como uma luta diária com as palavras. Nesta guerra sem fim, o inimigo vence a maioria das batalhas, e raras são as tréguas. No entanto, volto à carga todas as manhãs, feito um Sísifo que leva o rochedo até o alto da montanha, só para vê-lo rolar montanha abaixo no fim do dia.

Ontem, mais uma vez, estava eu me sentindo como um soldado derrotado, quando saí para passear com meu cachorrinho Cisco e rezar o terço. No início do passeio, Cisco optou por virar à esquerda e não à direita, não por razões ideológicas, mas apenas para seguir sua intuição canina. Eu ainda não sabia o que escrever sobre esta semana que promete ser turbulenta e difícil, como por sinal vêm sendo quase todas as semanas.

Não sou eu quem me leva, quem me leva é o Cisco. Estou rezando o terço e seguindo o vira-lata, quando vejo aproximar-se uma senhora sorridente.

— Paulo, que bom vê-lo. Eu precisava mesmo falar com você! Tem um minutinho?

Sorrimos de volta — eu com os lábios, Cisco abanando o rabo — e paramos. Reparo que a mulher levava consigo uma bolsa onde está bordada a palavra JERUSALÉM.

— Paulo, sou professora aposentada e leio a sua coluna todos os dias. Saiba que todas as manhãs eu rezo por você e peço a Deus que lhe dê forças para continuar escrevendo. Imagino que às vezes não seja fácil. Muita gente deve se incomodar com as coisas que você diz. Mas não desanime, alguém tem que fazer isso. Continue falando sobre sua família, sobre a política, sobre Deus. Não desista, Paulo!

Imagem ilustrativa da imagem Encontro com a leitora
| Foto: Shutterstock




— Puxa, suas palavras vieram na hora certa, dona... Qual é mesmo sua graça?

Então a senhora me disse seu nome, um nome que imediatamente entrou nas minhas orações. Despedimo-nos com um aperto de mão e seguimos nossos caminhos. Eu já não me sentia como um derrotado, mas como um homem que se prepara para a nova batalha.

No restante do caminho, a cada verso da oração que meus lábios recitavam, eu reencontrava forças na imagem daqueles que amei ao longo da vida: meu pai, minha mãe, Vó Maria, Vô Briguet, meu bisavô Antônio Costa, que se viu sozinho em um país imenso e desconhecido, aos sete anos de idade. E então pensei em minha amada Rosângela e no meu amado Pedro, e em todos vocês, amigos e sete leitores, que àquela hora da manhã deveriam estar dormindo o sono dos justos, no início da semana que terminará com a festa dos 100 anos de Nossa Senhora de Fátima, imagem consoladora que me acompanha desde a infância.

É por vocês, meus amados, meus queridos, que eu não posso parar de escrever com o coração nas mãos. É por você, minha leitora amiga, que todas as manhãs preciso recobrar as forças, clarear as ideias e domar as palavras, mesmo que a batalha seja vã...

Quem me enviou àquela leitora? Acho que foi Maria. O Cisco apenas colaborou.

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