Em busca de uma crônica desaparecida
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de dezembro de 2018
Paulo Briguet 

Hoje não tem crônica. Não tem crônica porque peguei uma gripe e não tive a chance de procurar um assunto; porque não soube perguntar a um amigo o que fazer. E para longe foram o assunto, o amigo, a crônica. Ficou a gripe; mas está passando.
Não era à toa que a mãe da gente dizia:
- Não anda descalço, eu já disse!
- Não dorme de cabeça molhada, meu filho!
- Paulo Antônio, não toma gelado!
Agora estou aqui. Com gripe e sem crônica.
Crônica que é bom, não tem. Tinha, mas acabou. Não tem crônica principalmente porque alguém, em algum lugar, já deve ter feito uma crônica assim, dizendo que não tem crônica. Mas juro que não é plágio; não me lembro direito. Não foi por querer que eu fiquei sem crônica.
Você queria crônica? Vai ficar querendo. Falhei; não levei um agasalho; saí no sereno; tomei água gelada com o corpo quente. Falhei; sorri sem vontade; julguei sem certeza; andei sem sentido. Não tive olhos de ver, nem ouvidos de ouvir: acaso teria mãos de escrever?
Rasguei a crônica sem levantar um dedo. Sem levantar a voz. Rasguei a crônica dentro do meu sonho. Mas, quando vi, estava acordado, e alguém me beliscou só pra avisar: "Você está sem crônica".
Meu sonho era ter uma crônica pronta e acabada, que dispensasse explicações, desculpas, métodos. Que entrasse na página como um homem entra em casa. Que entrasse no tempo como um pecador entra no confessionário. Que entrasse na memória como a guerra entra na paz. Que entrasse no espírito do homem como o pão entra na boca do faminto.
Sem crônica, não tenho querer. Não ganharei dinheiro, não pagarei os boletos, não cumprirei os prazos. Não caminharei na água, nem provarei do vinho. Não verei o sorriso, nem o choro, nem a chuva, nem a noite tão bem-vinda. Até a dor me deixará. E de manhã o Cisco ficará me olhando, de orelhas levantadas e ofegante, como se dissesse: "Ué, hoje não tem crônica?"
Uns não vivem sem opiniões. Outros, querem prazer. Uns veneram o poder, outros criam coelhos ou riqueza. Já naveguei na revolução, já naveguei no inconsciente; hoje navego no mar. Meu vício é diferente, de uma dependência crônica.
E se você achar a malvada, por misericórdia avise. Diga que eu estou esperando, ansioso e combalido. Diga que eu perdoo tudo. Diga que foi só bobagem. Diga que a culpa é imensa, e toda ela minha. Peça à dita que dê um sinal de vida. Se ela não quiser falar comigo, basta deixar o telefone tocar três vezes, e depois desligar. Saberei quem é.
De qualquer maneira, o e-mail está aí embaixo. Se alguém viu alguma coisa, favor deixar mensagem. Recompenso bem. Pago em crônica, na segunda que vem.
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