Imagem ilustrativa da imagem Em busca da hora perdida



Alguém aí viu uma hora perdida?

Da última vez em que foi vista, ela parecia estar em ótimas condições. Agia normalmente, não se atrasava para compromissos e movia seus dois ponteiros com absoluta serenidade.

Não notei no comportamento da hora nenhum indício de que pudesse desaparecer assim, de uma hora pra outra.

Da última vez em que a encontrei, respondeu normalmente à pergunta que lhe fiz: — Que horas são?

Pelo tom de voz da resposta, não percebi nenhuma alteração significativa.

Desculpe-me o uso da gíria, mas a minha hora era "da hora".

Ora, de sábado para domingo ela simplesmente sumiu. Não deixou carta, nem bilhete, nem e-mail. Fui até a sua página no Facebook, mas sua última postagem havia sido feita horas atrás.

O que a hora me fez, não se faz!

Agora vou proceder da mesma forma que os donos de cachorros e gatos desaparecidos. Espalharei pelo bairro cartazes com a sua foto e descrição. Embaixo, não farei o apelo dramático que em geral se vê nesses casos: "Criança doente. Recompensa-se bem". Direi apenas: "Adulto doente". Não prometerei recompensa porque não tenho dinheiro. Se alguém encontrar a minha hora, será pago com um sorriso e um muito obrigado. Talvez eu escreva uma crônica com o título "É chegada a minha hora".

Minha hora não tem nada demais: 60 minutos, 3.600 segundos, geralmente dividida em dois pedaços iguais, as famosas meias horas. Ao lado de suas 23 irmãs, forma um belo dia.

O que eu mais aprecio na minha hora é a sua pontualidade, seu equilíbrio aristotélico. Ela não é de direita, nem de esquerda, nem de centro, mas também não é isentona.

Ela é ela: uma hora sem demora — até porque relógio que atrasa não adianta, já dizia o Vô Briguet. Senhora hora!

Sobre o paradeiro da minha hora, só posso dizer onde ela não está.
Não está na República da Humaitá, 143, porque há vários anos a República foi demolida e substituída por um prédio.

Não está na padaria que ficava em frente à Rua Nepal, e que eu utilizava para reuniões com amigos e entrevistados. Porque a padaria fechou as portas faz duas semanas, deixando-me bem triste.

Não está em nenhuma das escolas "ocupadas" de Londrina, porque não aprecia a companhia de sindicalistas. Sempre teve um espírito muito independente, a minha hora.

Já procurei minha hora no Igapó, no Zerão, na Saul Elkind, no Calçadão, na Madre Leônia, na Ayrton Senna, na Maringá, no Parque Ney Braga, no Mercadinho Shangri-Lá, na Rua das Maritacas, na UEL em greve, na sede da APP. Em nenhum desses lugares ela deixou pistas.

Coitada da minha hora! Sumiu como sumiram as galinhas do Bosque. Quem se lembra delas? Quem se lembrará da minha horinha perdida?

Nesta segunda-feira mais segunda-feira do ano, em que todos acordamos sonolentos, eu faço um apelo aos meus sete leitores, e também àqueles que não gostam de mim, mas têm compaixão na alma: se tiverem notícias da hora, entrem em contato comigo. A qualquer hora.

Fale com o colunista: [email protected]

mockup