Elegia das casas de madeira
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de setembro de 2016
Paulo Briguet 

Caminho no final da tarde pela Rua Gomes Carneiro, em direção ao ponto de ônibus da Avenida Higienópolis. A noite toma conta do dia com uma velocidade impressionante. Meus passos, porém, são lentos, quase tão lentos quanto meu coração. Rezo o terço.
No céu de chumbo, vejo uma estrela cinza, que talvez seja um planeta. Não sei o seu nome. Carros com faróis acesos se dirigem com impaciência à universidade. No quarteirão entre o Moringão e a Rua da Lapa, observo as casas de madeira, minhas velhas conhecidas. Jamais as conheci por dentro, mas suas fachadas são extremamente familiares. Sinto-me como se já tivesse morado em cada uma delas.
Na esquina da Rua da Lapa com a Gomes Carneiro, há um estacionamento de carros antigos. Se um dia aprender a dirigir e tiver dinheiro suficiente duas coisas bem improváveis , comprarei um desses carros de outras épocas e sairei guiando pelas ruas da velha vila onde morei um dia.
Em frente à garagem dos carros de antanho, há uma casa abandonada. Casa de alvenaria ou "de material", como se diz aqui no Norte do Paraná. Vizinha das casas de madeira, essa edificação da esquina um dia foi o bar do Piter, onde íamos aos sábados para comer feijoada, tomar cerveja e discutir política. Às vezes eu levava o violão e ficávamos ali, numa mesa enorme e cheia de gente, cantando, comendo e bebendo até que viesse a noite e nos levasse para outro lugar. Éramos jovens e muito resistentes, com uma saúde de ferro.
Aquele que um dia foi o bar do Piter hoje está em ruínas. A varanda onde ficavam nossas mesas hoje é apenas um piso ao relento, cheio de rachaduras e ervas daninhas, como um galpão bombardeado anos atrás. As paredes estão completamente pichadas com símbolos incompreensíveis a qualquer um que não pertença a uma gangue de vândalos. Janelas e portas parecem trancadas para sempre, em silêncio atônito.
E, contudo, naquela época eu era muito mais solitário do que sou hoje. Se olhava uma estrela sem nome no céu, eu a imaginava como um mundo inóspito e desolado, integrante de um universo frio, impessoal e indiferente. Quanto tempo vivi sem dirigir um só olhar ao invisível? Quanto tempo perdi na solidão, mesmo acompanhado de excelentes amigos? Quanto tempo passei no mutismo, na surdez, na cegueira, imaginando que falava, via e escutava melhor do que todos? Quantos anos passei sem rezar?
Não sei se você já viu a rapidez com que uma casa de madeira é desfeita. Do dia para a noite, ela se reduz a nada. Comigo foi diferente. Foram necessários alguns anos para que eu me desfizesse das minhas ilusões egocêntricas, da minha vaidade, da minha solidão. Hoje eu olho para aquela estrela cinza, diante das velhas casas da Rua Gomes Carneiro, e penso que ela existe como personagem de um universo regido pelo perdão. Pois foi numa noite igual a esta que veio a salvação do mundo. E desta noite nasceu um dia, tão lindo como uma casa de madeira sob o céu de Londrina.
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