Ele já está preso
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terça-feira, 07 de fevereiro de 2017
por Paulo Briguet 

Juro que tentei ficar em silêncio e respeitar o momento de dor. Procurei dentro de mim as mais fundas reservas de compaixão. Tomei dois copos do elixir da paciência e pedi a Deus que me tornasse, por alguns dias, um ser condescendente, face à tristeza alheia. Foi minha maneira de observar o luto e esquecer a luta. Depor as armas, ao menos por um breve tempo.
Mas não houve como. Ao discursar, ele passou todas as barreiras e quebrou todos os limites do cinismo, do egoísmo e do maquiavelismo. Cometeu aquele que é um dos mais terríveis pecados: tentar a Deus. Exigiu do Criador uma misericórdia tão grande que acabou por ser contraditória com a própria justiça divina. O nome disso é Inferno. Não sei se irá para lá (isso quem decide é Deus), mas sei que naquela hora ele desceu até lá.
"Sereis como deuses", disse a serpente aos nossos primeiros pais. Até hoje existem aqueles que acreditam na antiga promessa da víbora. Querem ser iguais a Deus, acumulando poder neste mundo. Querem ser iguais, porque não suportam ser semelhantes. O resultado disso é a solidão absoluta: em certo momento, o homem acaba cercado apenas por bajuladores e comparsas. Não há nenhum amigo por perto para dizer "Não faça isso" ou "Aí você já foi longe demais". Todos à sua volta dizem sim, por mais que a estrutura da realidade insista em dizer não. Ao fim, falar a verdade passa a ser a maior ofensa possível. Ele odeia a verdade, porque, no fundo, inveja a Deus. Não é por acaso que ele vive se comparando a Ele.
É ocioso perguntar por que ele ainda não foi preso; ele já está preso. Está preso em suas mentiras, em sua obsessão, em sua arrogância, em sua própria alma ferida de morte. As grades de sua cela hoje são invisíveis como um paraíso fiscal, como um caixa dois, como uma lavagem de dinheiro, como um propinoduto mas não menos reais. Ele está encarcerado junto com o marqueteiro, com o empreiteiro, com o tesoureiro, com o companheiro. Está ao lado do amigo governador, do amigo bilionário, do amigo ministro. Tudo era papel e discurso, vaidade e vento. Ele não precisa usar tornozeleira eletrônica, porque o calcanhar de Aquiles hoje corresponde à sua anatomia completa. Não precisa fazer delação premiada, porque todas as delações e todos os prêmios já foram homologados no tribunal da consciência pública. Data vênia, ele está preso sem habeas corpus. E nós estamos presos à devastação que ele e seus amigos criaram, sem direito a sursis.
O país inteiro espera ser libertado, no dia em que ele entrar numa cela de verdade. Desconfio que, no fundo, até os que ainda acreditam nele ficariam aliviados se isso acontecesse. Enquanto ele estiver desfilando na cela móvel de si mesmo, representará um risco para nossa paz, para nosso progresso, para nossa vida. Liberdade, ainda que tarde.
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