Imagem ilustrativa da imagem É isto um jovem?
| Foto: Arquivo Agência Estado



Um dos efeitos da passagem do tempo é que nos acostumamos a olhar as pessoas mais jovens como se fossem crianças. Trata-se de um sentimento injusto, pois não é raro que um jovem prove ser bem mais responsável e maduro do que eu (às vezes, mais cruel e traiçoeiro). Mesmo assim, à primeira vista, um moço de 21 anos será sempre um garoto para mim.

Na noite de segunda-feira, eu estava descendo a Avenida Higienópolis à noite, por volta das dez horas. Vinha de uma palestra com amigos, onde discutimos o livro "Em Busca de Sentido — Um Psicólogo no Campo de Concentração", de Viktor E. Frankl (1905-1997).

Pensando em Frankl e em sua terrível experiência nos campos nazistas — experiência que ele transformou em uma celebração eterna da esperança humana —, olhei para o lado e vi uma cena terrível: um jovem acendia um cachimbo de crack.

Muitas vezes subi e desci a Avenida Higienópolis desde que cheguei a Londrina, em 1989. Caminhei por aquela rua carregando sentimentos de alegria, dor, tristeza, perplexidade, angústia, paixão e amor. Mas a imagem daquele rapaz fumando crack em plena avenida deixou o meu coração menor. Imediatamente pensei na mãe daquele rapaz: saberá ela que seu filho está agora destruindo a própria vida?

Ao chegar em casa, abri o livro de Viktor Frankl e reli o seguinte trecho:

"Nos campos de concentração, alguns prisioneiros, às cinco da manhã, recusavam-se a levantar e a ir trabalhar, preferindo ficar na cabana, sobre a palha molhada de urina e fezes. (...) E então ocorria algo típico: puxavam um cigarro do fundo de um bolso qualquer, e começavam a fumar. Naquele momento, nós sabíamos que, durante as próximas 48 horas, iríamos observá-los morrer. (...) Porventura isso não nos lembra de uma situação paralela com que nos confrontamos todos os dias? Penso nos jovens, em escala mundial, que se referem a si mesmos como ‘geração sem futuro’. Sem dúvida, não apenas ao cigarro que eles apelam: é às drogas."

Para Frankl, as drogas são o aspecto de um fenômeno universal: a falta de sentido e o vazio existencial que se verificam sobretudo entre as novas gerações.

Fui batizado em São Paulo, na capela do Colégio Sagrado Coração de Jesus. Quarenta e seis anos depois, a região do colégio transformou-se na Cracolândia, onde legiões de usuários de drogas se arrastam como internos de um campo de concentração sem muros e sem cercas elétricas. Eles estão presos em si mesmos; padecem do mesmo vazio apontado por Viktor Frankl. O Hitler deles é o seu próprio coração — anexado pelo crack.

O jovem que eu vi na Higienópolis poderia ser o filho de qualquer um de nós; poderia ser eu mesmo se tivesse seguido outro caminho, longe das águas do batismo. E sem dúvida ele faz lembrar o ser descrito no poema de Primo Levi, ele também sobrevivente do nazismo:

"Pensem bem se isto é um homem

que trabalha no meio do barro,

que não conhece paz,

que luta por um pedaço de pão,

que morre por um sim ou por um não".

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