É a promessa de vida no teu coração
Homenagem ao cantor João Gilberto, morto no último sábado, aos 88 anos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de julho de 2019
Homenagem ao cantor João Gilberto, morto no último sábado, aos 88 anos
Paulo Briguet 
Naquele tempo eu era ateu e morava na República da Humaitá. Todos os dias, por volta das seis da tarde, eu colocava na vitrola um LP de João Gilberto. Sempre escutava a mesma música: Águas de Março. Hoje percebo que era uma espécie de oração. Exatamente como faz um fiel que reza o terço, eu voltava repetidas vezes a ouvir a canção de Tom Jobim, que por si só tem uma circularidade evidente.
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho...
Pela janela da sala, entravam alguns restos de dia e começos de noite, misturados aos sons de Londrina. Em algum dia do ano da graça de 1991, eu me sentei à frente da máquina Olivetti e escrevi as seguintes palavras:
Agora mesmo o toca-discos está ligado e ouço Águas de Março, na voz e violão de João Gilberto. Que me perdoem os fãs de Elis Regina, mas a versão do cantor baiano é infinitamente superior à dela.
João Gilberto parece ter conhecimento dos motivos que levaram Tom Jobim a compor Águas. Tom foi ao médico e escutou o veredicto: ou parava com a bebida, ou morria. Voltando para casa, sentou-se ao piano e pariu a canção. Daí, “É pau, é pedra, é o fim do caminho”. Ou mesmo: “É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol”. O anzol de Tom soube fisgar João Gilberto para a realidade e a natureza da arte musical. Águas de Março é um som infantil. É circular, e fala basicamente do instinto de morte despertado. Desse instinto, o maestro Tom Jobim fez nascer o seu Eros, o seu instinto de vida, mostrando a circularidade da existência.
João, com seu toque único, insistente, beirando o desafinado, mas nunca chegando a ele, repete a letra da música várias vezes: Águas de Março torna-se um ciclo, fechando o verão, um modelo de hipnose, uma luz no pesadelo, uma promessa de vida no teu coração desenganado, uma cantiga de roda.
Os adeptos de Reich e da filosofia corporal certamente vão discordar do que estou dizendo, mas Freud garantia: a repetição nas brincadeiras infantis é uma das provas da existência do Tanatos (instinto de morte). O prazer das crianças pequenas em cantar a mesma música dezenas de vezes indica uma tendência fundamental no homem: voltar ao estado inorgânico das coisas.
*******
Na época em que escrevi esse texto, eu tinha 21 anos. Mencionei Eros e Tanatos, o princípio de vida e o princípio de morte, mas ignorava o mais importante: Ágape, o princípio da eternidade. Ao escutar aquela canção nos finais de tarde, eu estava fazendo a oração do Rosário, onde repetimos 159 vezes a palavra morte.
E assim eu terminava o texto:
Outro dia um colega se queixou das vaias com que foi recebido por uma multidão de estudantes. Talvez a vaia represente para ele o que a música demonstra para mim: um inevitável riso diante da realidade. Um riso divino, abstrato, misterioso, oblíquo. Um riso que ouço agora, nos compassos do violão de João Gilberto, um violão bem diferente do meu, mas que em suas batidas vai chegando perto das batidas do meu coração, que se harmonizam, que se fundem, que se repetem, que se desafinam, até que um dia, como esta música, possam parar completamente.
Fale com o colunista:[email protected]


