Doutor Sorriso
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segunda-feira, 10 de abril de 2017
por Paulo Briguet 
Na semana passada estive na querida cidade de Cambé, onde fiz uma pequena palestra aos dentistas da Prefeitura. Foi um momento feliz, ao menos para este palestrante amador. Como nenhum dos ouvintes dormiu ou se retirou indignado, avalio que as minhas "Confissões de um sobrevivente" não foram um completo desastre.
Enquanto falava aos dentistas, lembrei-me de um sorriso: o sorriso do Dr. Massaru Shikishima, que tratava dos meus dentes na infância. Há quase 40 anos não o vejo. Mas é como se ele estivesse aqui, agora, enquanto escrevo estas linhas no computador para a minha crônica de segunda-feira.
Dr. Massaru tinha o seu pequeno consultório na Rua Augusta, em São Paulo. Eu era pequeno; acho que na época morávamos ainda no "apertamento" da Alameda Barão de Limeira. Meu pai dirigia seu Fusca sedã (ou seria a Brasília verde-garrafa?) até o consultório do amigo, e eu ia no banco de trás, repetindo entre risadas:
Dr. Massaru, Dr. Massaru, Dr. Massaru!
De fato, eu achava muito engraçada a sonoridade do nome "Massaru". Mas também estava feliz porque íamos visitar o dentista amigo da família. Aos seis anos de idade, eu já percebia que aquele homem era especial. Quando penso em dentista, não penso no barulhinho do motor nem na injeção de anestesia, mas no Dr. Massaru.

Formado em Odontologia pela USP no ano de 1961 (chequei os arquivos), Dr. Massaru sempre nos recebia com festa. Nunca faltava uma brincadeira, ou uma piada, ou uma conversa boa. Certa vez ele nos convidou para uma pescaria (japonês, adorava pescar). Sonho sempre com o lago em que demos banho nas minhocas, porque não pegamos nem um lambari. Mas não houve problema: após a pescaria, Dr. Massaru nos serviu um delicioso arroz "gorrã". Minha mãe também estava nesse dia. E a esposa do Dr. Massaru, Tia Luzia, tão simpática quanto o marido.
Certa vez fomos ao consultório da Rua Augusta e, para nossa surpresa, Dr. Massaru não estava sorrindo. No momento em que chegamos, ele atendia um paciente que pouco antes sofrera um derrame cerebral e havia perdido os movimentos do lado esquerdo do corpo. Nunca me esquecerei da expressão de alívio daquele homem ao sair do consultório. Dr. Massaru conseguiu aliviar-lhe a dor... e só então sorriu.
Na infância, tive muitos super-heróis: Super-Homem, Capitão Marvel, Capitão América, Homem-Aranha, Batman, Homem de Ferro, Hulk, Flash Gordon. Mas nenhum deles tinha o superpoder do Dr. Massaru: o duplo dom de sorrir e fazer sorrir.
Por onde anda esse herói? Será que o Dr. Massaru ainda atende? Será que ele ainda faz brincadeiras com as crianças? Será que ele ainda leva arroz "gorrã" para as pescarias? Voltar ao consultório do Dr. Massaru, mesmo que seja por alguns instantes, me faz redescobrir um pouco de mim mesmo. Como já sabia Ulisses, o herói da Odisseia, a maior aventura do mundo é voltar para casa.


