Imagem ilustrativa da imagem Dom Quixote de Londrina
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"Não somos nós que explicamos os clássicos, eles é que nos explicam." A cada vez que me coloco perante alguma grande obra da literatura, essa frase do professor José Monir Nasser (1957-2013) se revela novamente certeira.

A releitura de "Dom Quixote de la Mancha" prova que o romance de Miguel de Cervantes, publicado há 400 anos, faz jus também ao comentário de outro saudoso intelectual, o poeta londrinense Thomaz D’Amico: "Lemos Dom Quixote na juventude para rir e mais tarde para chorar". Foi exatamente o que aconteceu comigo: há alguns anos, o que me chamava mais a atenção eram as trapalhadas do Cavaleiro da Triste Figura e de seu escudeiro Sancho Pança. Agora, comecei a enxergar o que há de trágico no romance imortal de Cervantes. Talvez porque daqui a pouco me esteja chegando a idade do fidalgo.

Pois Dom Quixote, o nobre manchego que enlouquece ao ler romances de cavalaria, homem de um mundo que já morreu, exército de um guerreiro só, criatura deslocada e caricatural numa realidade que não o aceita, é o retrato da nossa condição. "O mundo em que nós vivemos", observa Monir, "é fruto da guerra perdida por Dom Quixote". Nós também estamos condenados a sofrer sucessivas derrotas na luta diária pela sobrevivência da alma. Somos pateticamente vulneráveis e milagrosamente resistentes; buscamos uma recompensa que quase sempre nos é negada; rodamos em torno dos mesmas estalagens e moinhos de vento; como resultado de nossa cegueira, por vezes causamos estragos sem par. Em cada um de nós, há um louco que só a misericórdia de Deus pode curar e perdoar.

O grande Dostoievski, que passou a vida guerreando com os prazos de livros não escritos, as dívidas de jogo e uma profunda angústia na alma, acreditava que "Dom Quixote" era mais do que uma genial obra literária, mas a própria definição da tragédia humana. "Este livro é a minha conclusão sobre a vida", chegou a dizer o escritor russo.

Dom Quixote não é só da Mancha. É da Rússia, de Richmond, do Rio, de Búzios, de Pequim, do Cairo, de Londres e de Londrina. Dom Quixote está lá na esquina. Note-se que a sua história, como a de Ulisses, é a história de uma volta para casa. Dom Quixote é você!

Alentador é saber que, apesar de todas as loucuras, o Cavaleiro da Triste Figura acaba sendo o responsável por fazer o bem a personagem que ele nem sequer sabia verdadeiramente quem eram — entre elas, os seus leitores de todos os tempos. Talvez por isso, Sansão Carrasco, misto de rival e protetor que acaba por estar ao lado de Dom Quixote na hora da morte, lhe tenha feito o seguinte epitáfio:

"Aqui jaz quem teve a sorte
de ser tão valente e forte,
que o seu cantor alegou
que a Morte não triunfou
da sua vida coa sua morte.
Foi grande a sua bravura,
teve todo o mundo em pouco,
e na final conjuntura
morreu: vejam que ventura,
com siso vivendo louco!"

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