Dois e dois são cinco
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 31 de outubro de 2016
por Paulo Briguet 

Em 1990, eu estava no segundo ano de jornalismo e invadi a reitoria. Durante a assembleia que decidiu pela invasão (no linguajar da militância, "ocupação"), ocorreu um fato interessante. A proposta de invadir o prédio da administração foi votada e rejeitada pela maioria. Mas a assembleia não terminou; os discursos continuaram, outras propostas foram encaminhadas, caía o sereno e muitas pessoas começaram a ir embora. De repente, a proposta de "ocupação" da reitoria voltou à pauta, foi votada e aprovada! Na época, eu tinha apenas 19 anos (tinha acabado de votar em Lula para presidente). Pensei comigo mesmo: "Ué, essa proposta não foi rejeitada antes?" Embora um calouro de economia tenha pedido a palavra para dizer que os condutores da assembleia estavam sendo tendenciosos, procurei afastar meus pensamentos negativos. "Decerto", pensei, "deve ter me escapado alguma coisa. Afinal, os companheiros não agem com deslealdade".
Terminou a assembleia e fomos para a reitoria. Durante algumas noites dormi em cima de um edredom, na sala do Conselho Universitário. Fui usado como massa de manobra para um projeto político que, à época, me escapava. Eu não sabia que numa assembleia dois e dois são cinco quando convém à esquerda.
"É impossível demonstrar o teorema de Pitágoras numa assembleia", dizia o economista Antônio Delfim Netto, que conseguiu ser ministro da Fazenda na ditadura militar e um dos principais conselheiros de Lula. Ele tinha razão: a assembleia é um lugar perfeito para manipular emoções e pensamentos coletivos. Os partidos de esquerda dominam essa técnica; os não-esquerdistas, em geral, são esmagados. Um conservador está para uma assembleia como um sparring está para o boxe: ele jamais vencerá a luta.
Nos últimos dias, conversei com estudantes e professores que são contrários à greve da universidade. Em muitos departamentos, sobretudo nas áreas de exatas e biológicas, eles têm consciência de que representam a maioria. De qualquer modo, embora tenham críticas ao governo estadual, esses membros da comunidade universitária defendem o próprio direito de trabalhar e estudar. Alunos dos cursos da área de saúde, por exemplo, temem prejudicar pacientes pobres que necessitam de atendimento. Uma pessoa doente não pode esperar o fim da greve. Como no caso das greves de bancos e transportes públicos, os mais prejudicados são os mais pobres.
Aí você pode perguntar: "Por que esses professores e estudantes não se manifestam nas assembleias?" A resposta é muito simples: eles morrem de medo de ser vaiados e chamados de fascistas, golpistas e tucanos. São bons no que fazem, não em oratória esquerdista.
O assembleísmo é um terreno propício para a defesa dos maiores absurdos. Voltaremos ao assunto. Encerro apenas dizendo, como naquela velha canção, que tudo está certo. Tudo certo como dois e dois são cinco.
Fale com o colunista: [email protected]


