Imagem ilustrativa da imagem Divina Comédia do Sertão
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As coisas mais importantes da vida não têm relação nenhuma com a política ou com o mercado, tampouco possuem vínculo com os prazeres comuns. Não fazem parte dos bens valorizados pela casta político-militar, nem dos procurados pela casta econômico-empresarial, mas estão diretamente ligadas à essência das castas sacerdotal e servil. Encontramo-las, essas coisas, quando nos vemos diante da verdade, da bondade e da beleza. O momento contemplativo ocorre, por exemplo, quando ouvimos pela primeira vez uma bela canção. Vivi isso há alguns dias, quando escutei a "Cantiga do Estradar", do compositor baiano Elomar Figueira Mello.

Aos 80 anos de idade, Elomar é um dos mais autênticos expoentes da alta cultura sertaneja. "Cantiga do Estradar", que lembra páginas de João Guimarães Rosa e José Lins do Rêgo, inspira-se na fala dialetal do homem sertanejo. Partindo dessa base regional, Elomar atinge os píncaros da universalidade em 34 versos primorosos - o mesmo número de cantos do Inferno da "Divina Comédia". O cantador narra a sua descida às profundezas, perfazendo a "Jornada do Herói" tão bem descrita por Joseph Campbell.

"Tá fechando sete tempo qui miã vida é camiá
Pulas istrada do mundo dia e noite sem pará
Já visitei os sete rêno adonde eu tiã qui cantá
Sete didal di veneno traguei sem pestanejá
Mais duras penas só eu vêno ôtro cristão pra suportá
Só irirmão do sufrimento de pauta véa c'a dô
Ajuntei no isquicimento o qui o baldono guardô
Meus meste na istrada e o vento quem na visa mi insinô"

Pouco a pouco, a tensão da música se eleva a um paroxismo de dor. E é impossível ouvir esses versos, sem pensar nos grandes heróis que desceram aos infernos - Dante, Ulisses, Enéias, Boécio, Dom Quixote, Fausto, Pedro Bezukhov, Raskolnikov, Ivan Ilitch, Vasco da Gama, Fernando Pessoa e o próprio Jesus Cristo. Imediatamente somos levados àqueles momentos de nossas vidas em que nós também percorremos as trevas do "sufrimento", de "pauta véa c'a dô":

"Vô me alembrano na viage das pinura qui passei
Daquelas duras passage nos lugari adonde andei
Só de pensá me dá friage nos sucesso que assentei
Na miã lembrança ligião de condenados nos grilhão acorrentados
Nas treva da inguinorânça sem a luz do grande Rei
Tudo isso eu vi nas miã andança nos tempo que eu bascuiava o trecho alei"

"A biografia de um poeta está nos meandros do seu estilo", escreveu o poeta russo Joseph Brodsky. Há algo do exilado das estepes russas e do cantador do Sertão baiano na vida de todos nós; a diferença é que o poeta sabe traduzir essa peregrinação espiritual em um dialeto próprio. E, ao final da sua ode, ele pode dizer com o peito cheio de esperança:

"Só assim nóis vê a face ogusta do qui habita os altos céus
O piedoso o manso o justo o fiel e cumpassivo
Siõ de mortos e vivos nosso Pai e nosso Deus
Disse qui haverá de voltá cuano essa terra pecadora
Marguiada im transgressão tivesse chêa de violença
De rapina de mintira e de ladrão"

O Sertão vai virar Elomar.

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