Imagem ilustrativa da imagem Diário de um gago
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A-ti-ti-ti-ti-re a primeira pedra quem nunca contou uma piada de gago. Estávamos eu e meu amigo Lúcio falando sobre a Rua Gago Coutinho, situada no Bairro Aeroporto, quando veio à baila o assunto da gagueira. Observei a meu amigo que Gago Coutinho não era gago; tratava-se apenas do sobrenome do pioneiro da aviação luso-brasileira. Se o nome correspondesse à dificuldade fonética, pode-se imaginar que o aviador teria dificuldades em comunicar-se com a torre de controle; mas na época não havia torres de controle.

Passamos a falar então, Lúcio e eu, sobre alguns gagos históricos. Quando o próprio Deus convocou Moisés para liderar o povo hebreu, o escolhido disse que não acreditava ser a pessoa indicada para a tarefa, pois tinha "a língua pesada". Deus não aceitou a desculpa e garantiu que destravaria sua língua. Presume-se que curar a gagueira de Moisés foi mais fácil do que abrir o Mar Vermelho.

Alguns dizem que Aristóteles também teria sido gago, o que explicaria em parte o relativo insucesso do Liceu em comparação com a Academia de seu antigo mestre Platão. Mas me parece que é historicamente mais preciso dizer que o problema de Aristóteles não era a gagueira, mas uma especial de sibilo ao pronunciar determinadas palavras. Língua presa, no linguajar moderno.

Além do Rei George VI da Inglaterra, cuja história de superação da gagueira vimos no ótimo filme "O Discurso do Rei", causa-nos surpresa que um dos melhores oradores de todos os tempos, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, também tenha sofrido com o mesmo problema no começo da carreira. Em sua pequena e excelente biografia de Churchill, o historiador Paul Johnson conta que o político costumava escrever e decorar seus discursos parlamentares, que muitos imaginavam ser frutos do improviso.

Noel Rosa tem aquele sambinha delicioso, "Gago Apaixonado". A canção retrata um caso de gagueira psicossomática: "Mu-mu-um-lher me fi-fi-fi-zeste um estrago/ Eu, de nervoso, tô fi-fi-fi-fi-ficando gago..." Letrista habilidoso, o compositor da Vila Isabel usou as repetições da gagueira para atender à métrica das frases musicais. O resultado é divertido.

Por um momento pensei em falar do personagem Dirceu Borboleta, da novela "O Bem-Amado" ("Co-co-co-co-ro-né!"), mas acabei de me lembrar que o maior escritor brasileiro, Machado de Assis, era gago. O autor de "Quincas Borba" deve ter superado o problema à custa de grande esforço pessoal. Talvez para isso tenha contribuído a publicação do romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas", que assinala a grande guinada estilística em sua carreira literária, quando Machado encontrou sua própria voz e passou de um mero escritor competente a um fenômeno da literatura universal.

E quem sabe se o Bob Dylan não tenha deixado de ir à entrega do Prêmio Nobel exatamente por medo de gaguejar? É sabido que alguns cantores — como nosso grande Nelson Gonçalves — são gagos quando não estão cantando...

De-de-de-de-desculpe as brincadeiras, ca-ca-ca-caro leitor.

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