Diário da depressão

De repente, A. parou de sorrir, cantar e fazer piadas de manhã. Nos primeiros anos de casamento, sua mulher se surpreendera com esses hábitos tão incomuns: "Como é que você pode ter um humor tão bom logo depois de acordar?" Mas, agora, o que ela estranhava era o silêncio matinal do marido. Durante alguns minutos, ela esperava a primeira piada, a primeira canção, o primeiro trocadilho, a primeira imitação e nada. "Alguma coisa não vai bem com o A.", pensou ela.
No começo, A. achou que aquilo fosse apenas decorrência dos pequenos problemas cotidianos. Essas mínimas contrariedades, quando somadas, às vezes podem incomodar como uma nuvem de moscas: uma conta atrasada, uma prestação por quitar, uma chave perdida, um vírus no computador, um problema na parte elétrica do carro, uma xícara quebrada, um relatório que não se concluía. Mas, de uns tempos para cá, cada um desses probleminhas ganhava o peso de um soco no estômago.
Até então, o café da manhã antes era sempre marcado pelos assuntos do noticiário. A indignação contra a vida pública significava uma espécie de triunfo da vida familiar. Os políticos e os criminosos viviam lá no inferno, mas eles não: eles viviam um santuário doméstico, protegidos do mal.
No entanto, o café da manhã começou a ser tomado em silêncio. As notícias do dia, por piores que fossem, pareciam anódinas. Para A., o mundo lá fora se tornara tão falso quanto os livros de uma biblioteca cenográfica aqueles livros de madeira, sem página nenhuma, que o Didi "desmascarava" no programa dos Trapalhões.
Certa manhã, quando a esposa saiu cedo para trabalhar, A. tentou pentear os cabelos do filho mais novo (os dois mais velhos estavam na escola). Molhou os cabelos do menino, passou-lhes o pente com as mãos um pouco trêmulas. Vendo-se no espelho, o filho gritou com espanto: "Papai, esse não sou eu!"
Esse não sou eu. O menino desfez o penteado, penteou-se sozinho e ficou melhor. Enquanto isso, ainda com a última xícara de café nas mãos (essas mãos levemente trêmulas), ele sentiu os primeiros sintomas da dor de cabeça que agora lhe torturava todas as manhãs, sem exceção. Não era ressaca; há muitos anos ele não bebia nada. Tomou um comprimido para a dor.
Da janela, olhou para a rua; a segunda-feira já seguia a pleno vapor. Tecnicamente, seria o que qualquer um chamaria de uma linda manhã: sol, céu, brisa. O açougue, a farmácia e a quitanda já estavam abertos; o vendedor de frutas dava troco a um cliente que comprara limão galego; as mães já voltavam da creche onde haviam deixado os seus pequenos; um ônibus esperava um grupo de sete mulheres descer no ponto, com suas bolsas. Tudo estava como sempre inclusive a ciclovia, onde não se via nenhum ciclista. Mas tudo parecia embotado, sombrio, efêmero.
Fechou os olhos e começou a rezar as orações que havia aprendido na infância. Ao terminar, viu que o filho brincava sozinho com os heróis guerreiros: exatamente como ele fazia quando tinha a mesma idade. E foi assim que A. deu o primeiro sorriso naquela segunda-feira.
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