Dia dos Vivos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de novembro de 2016
por Paulo Briguet 

"Quando morre uma pessoa que é próxima a você, nas primeiras semanas essa pessoa fica tão distante de você quanto é possível estar; é só com o passar dos anos que ela se torna mais próxima, e aí chega um momento em que você está quase vivendo com ela."
A frase acima é do escritor Isaac Bashevis Singer, numa entrevista ao seu colega Philip Roth, concedida em 1976. Singer, que viria a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, teve uma vida bastante atribulada. Nasceu na Polônia, numa família de judeus ortodoxos, e imigrou para os Estados Unidos nos anos 30, fugindo da perseguição racial. Inúmeros familiares e amigos de Singer morreram sob o nazismo. Nos EUA, ele continuou escrevendo em iídiche, língua dos judeus da Europa oriental, quase extinta. No seu discurso de aceitação do Nobel, em 1978, ele afirmou: "Creio na ressurreição. Estou certo de que um dia milhões de cadáveres fluentes em iídiche se levantarão de seus túmulos e a primeira pergunta que farão será: Há algum novo livro em iídiche para ler? Para eles, o iídiche não será uma língua morta".
Não sei o português um dia será uma língua morta embora muitos se esforcem nesse sentido , mas uma das alegrias de qualquer idioma é poder falar com aqueles que já se foram. Não no sentido mediúnico, mas através do diálogo com a cultura. Ler um livro de Isaac Bashevis Singer ou ouvir a 7ª Sinfonia de Beethoven, como faço ao escrever estas palavras, é uma das formas de conversar com os que viveram antes de nós e ainda vivem através de suas obras, seus talentos, suas memórias.
Depois dos 40 anos, comecei a ficar míope. Já havia perdido meu pai aos 38; perdi minha mãe aos 41. Vão chegando os meses de novembro e dezembro, quando eles partiram, e a saudade começa a bater mais forte. Como os meus olhos atualmente não conseguem enxergar nada além de borrões a partir de uma distância maior do que cinco metros, consolo-me dizendo que Paulo e Aracy moram hoje na terra além dos meus sentidos. Mas vivem tão perto quanto os parentes poloneses de Singer viviam no seu apartamento em Nova York.
É por isso que o Dia dos Mortos, para mim, será sempre o Dia dos Vivos. As pessoas que amamos continuam mais próximas de nós do que nós mesmos. Os olhos não podem enxergar dentro do próprio coração: eis a única razão pela qual nossos mortos estão invisíveis agora; tão invisíveis quanto o ar que respiramos e quanto a água será para um peixe nas profundezas do oceano.
A exemplo do mestre Isaac B. Singer, eu creio na Ressurreição. Aliás, como vocês devem ter notado, gosto de grafar essa palavra com inicial maiúscula, porque a meu ver se trata de uma pessoa. "Eu sou a Ressurreição e a Vida", respondeu Jesus à irmã de Lázaro. Ouçamos mais uma vez essa resposta no dia de hoje. Vivam os mortos.
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