Defenda-se do mal
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terça-feira, 26 de junho de 2018
por Paulo Briguet 

1. O mal existe e está solto no mundo. Enquanto insistirmos em ignorar a presença da maldade humana, seremos reféns dos psicopatas, dos bandidos e dos militantes do caos.
2. Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas, publicou nos anos 40 o clássico "Em Busca do Sentido". Uma das maiores lições da obra de Frankl é a rejeição enfática do conceito de culpa coletiva. Sem a noção de responsabilidade individual, a justiça se torna impossível. Se todos são culpados, ninguém é culpado.
3. O truque mais antigo do diabo consiste em fazer com quem as pessoas não acreditem na existência dele. Uma sociedade que relativiza as noções de bem e mal, onde todos os valores se equivalem, torna-se escrava dos projetos de poder. "Se Deus não existe, tudo é permitido", disse um personagem de Dostoiévski. Se tudo é permitido, o diabo manda.
4. O grande escritor russo Alexander Soljenítsin, que denunciou os campos de concentração comunistas, afirmava que a linha divisória entre o bem e o mal atravessa cada coração humano. "E quem está disposto", perguntava o autor de "Arquipélago Gulag", "a destruir uma parte do seu coração?"
5. Uma das formas de compreender a realidade do bem e do mal encontra-se nos clássicos da literatura. Para o grande crítico literário canadense Northrop Frye, a experiência literária nos oferece tanto um mundo melhor quanto um mundo pior do que este em que vivemos, obrigando-nos a olhar fixamente para ambos. Paradoxalmente, o mundo da ficção é aquele que nos faz enxergar a verdade.
6. O leitor de "A Divina Comédia", "Guerra e Paz" ou "Odisseia" encontra, sob a forma literária, os extremos da realidade que, cedo ou tarde, acabará por experimentar de alguma forma em sua vida individual ou comunitária. Mesmo quando alguma coisa horrível acontece na literatura como a cena de Shakespeare em que o rei arranca fora os olhos de Gloucester ou a morte por envenenamento de Emma Bovary , há em nós leitores a certeza consoladora de que precisamos evitar aquilo em nossa vida. Ou, nas palavras de Frye: "Quanto mais a nossa exposição a crueldades pela ótica da literatura, menor a nossa chance de encontrar nelas um prazer secreto".
7. A cultura literária e a tradição sagrada permitem-nos alargar o nosso horizonte intelectual, para que sejamos capazes de imaginar a bondade e a maldade humana na sua plenitude. Creio que o desafio de resgatar os valores civilizacionais por meio da cultura é uma tarefa infinitamente mais importante do que eleger este ou aquele presidente da República. Sem cultivar a inteligência, seremos sempre reféns dos bandidos, dos militantes ou daqueles que são as duas coisas ao mesmo tempo. Um país sem cultura e sem religião abre caminho para a ditadura do crime e da ideologia.
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