De volta à velha República
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de novembro de 2016
por Paulo Briguet 

O chão da praça está coberto de flores amarelas, e alguém um dia me disse que nada de ruim pode acontecer quando há flores amarelas por perto. Aproximo-me da velha casa alugada onde morei tantos anos atrás. Atravesso o jardim sem rosas e ganho a pequena varanda, sem capacho. Abro a porta da casa, que nunca está trancada. Na sala, existe um velho e enorme sofá cheio de rasgos que, suspeito, deve pesar uma tonelada.
Quantas moedas, balas e aspirinas não terão desaparecido entre seus vãos? Ao lado do sofá, um estranho móvel de madeira que, na verdade, é uma antiga televisão. Em cima dela há uma televisão menor, como se fosse filha da primeira. Desligadas.
Vou até a copa e encontro o telefone de disco sobre um pequeno aparador. Na parede em frente ao aparelho, há centenas de nomes e números nervosamente rabiscados. É a nossa agenda telefônica, que não segue qualquer tipo de lógica. Ao lado do telefone e da parede rabiscada, há uma vitrola e uma caixa acústica. Encostados na caixa, alguns discos de vinil. Alguém estava ouvindo Charlie Parker. Quantas festas não houve aqui?
Na cozinha, a geladeira está ligada; alguém por milagre lavou e guardou a louça na estante. O sol se reflete em gotículas na pia de metal. Fecho os olhos por um momento, pensando em alguém que encontrei nesta cozinha há muito, muito tempo atrás. No quarto ao lado da cozinha sim, esta casa tem uma arquitetura estranha , se você olhar com muita atenção, verá que ainda existem algumas pequenas marcas de sangue entre o rodapé e o assoalho.
Decido visitar o quarto da frente o meu quarto. Minha cama é apenas um colchão. Ao lado, está a escrivaninha com alguns livros enfileirados e a máquina de escrever que não escreve a letra "a". Há uma foto de Lev Trotsky, uma de Lev Tolstói e uma de Sigmund Freud. Os três me olham com ar desafiador. No criado-mudo, há um romance de Paulo Francis "Cabeça de Papel" aberto numa página repleta de anotações e rabiscos.
No fundo do armário, acho o desenho do rosto de uma mulher, feito com carvão. Ao lado da máquina, vejo flores amarelas.
Os caras devem ter saído, talvez tenham prova ou estejam de plantão. Um ônibus acho que o 305 passa pela Rua Humaitá. As cigarras começam a cantar com a mesma aflição de milhões de anos atrás. Ouço o grito longínquo de uma criança que pede a mãe. Vou até a porta dos fundos, que dá para o quintal a mesma porta que um dos caras, um querido amigo, derrubou com os pés no dia em que veio sem chave. Vejo o pé de milho que alguém plantou e agora está maior que um homem. A goiabeira não tem frutos; seus galhos parecem braços que suplicam. A churrasqueira de tijolos está fria e cheia de cinzas. O tanque secou.
Essas paredes, essas janelas, essas telhas, estas plantas, este chão: tudo é feito de uma estranha combinação de dor e alegria. No silêncio do crepúsculo, o único som que consigo ouvir é o do meu próprio coração a pedir perdão, perdão, perdão. Então eu me lembro que a República da Humaitá não existe mais foi demolida há muitos anos.
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