Dá-me um pouco da tua dor
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 18 de julho de 2016
por Paulo Briguet 

No domingo do meu aniversário, ganhei uma bromélia. A amiga médica que deu o presente escreveu no cartão: "Essa planta nunca morre". Bem cuidada, a bromélia pode durar décadas e passar de pai para filho. Um dia, se Deus quiser, o Pedro vai regar suas raízes.
Poucos antes de ganhar a linda bromélia, encontrei meu amigo Valdir Grandini, o Dentinho. Somos pessoas muito diferentes, tomamos caminhos diversos na vida, mas nunca deixamos de nos respeitar e admirar. Felizmente, a política e o mundo não nos separaram. Trocamos um abraço caloroso na rua da minha santa, a Avenida Madre Leônia, bem no final da Higienópolis. É um lugar mágico para mim, perto da igreja, do santuário, da escola e da creche das crianças pobres, da padaria do Nelson, do Asilo São Vicente de Paulo, da Escola de Música Roney Marczak, do Espaço Histórico Dom Geraldo Fernandes, da Casa da Memória Madre Leônia, da capela onde descansa minha santinha, do Bosque da Ressurreição.
Meu amigo estava com a esposa; parecia feliz. Deu-me boas notícias sobre o filho, André, e sua luta contra um melanoma.
Para minha grande tristeza e surpresa, o André morreu no último domingo, uma semana depois que chegou a bromélia. Se para mim foi uma notícia devastadora, imaginem para o meu amigo. Imaginem para a Maria, mãe do André. Abracei o Pedro, abracei a Rosângela, olhei para a bromélia e vi que suas cores pareciam menos intensas. Alguns acontecimentos parecem diminuir a cor e a forma da realidade sensível.
André Fiorato Álvares tinha 31 anos. Para mim, será sempre um menino. Pois foi assim que eu o conheci: o filho do Dentinho, que morava perto da pracinha da nossa República da Humaitá. André, na minha memória, nunca deixará de ser o Tchucão, menino esperto e talentoso, cujos desenhos incríveis Dentinho com muito orgulho nos mostrava quando íamos Osmani, Preto, Beto, Ernesto, Marcelo Data... ao saudoso Bar do Paulinho, na Higienópolis. Meu pai às vezes estava junto conosco; conheceu o André.
Há alguns meses, a família do André fez campanha para a compra de um novo remédio utilizado no tratamento do melanoma. A campanha da qual a coluna Avenida Paraná participou foi um sucesso e o uso do medicamento proporcionou mais tempo e qualidade de vida para o Tchucão. Mas outra consequência importante da iniciativa talvez tenha sido a reaproximação de velhos amigos que, por motivos diversos, haviam se distanciado um pouco.
André partiu na tarde do domingo frio, no exato momento em que eu lia uma lancinante carta do médico Viktor Frankl, escrita em 1945, ao saber da morte dos pais e da esposa grávida nos campos de concentração nazistas. Naquele mesmo ano, Frankl escreveu o clássico "Em Busca de Sentido", no qual afirma: "Se a vida tem um sentido, também o sofrimento necessariamente o terá".
Ah, meu amigo! Dá-me um pouco da tua dor para que a bromélia chamada vida continue bela. Eu já disse, e repito: O amor é mais forte que a morte.
Fale com o colunista: [email protected]


