Imagem ilustrativa da imagem Crônica para chamar chuva
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1. Há quase 40 dias não chove na cidade. Como não sei dançar, e de simpatias conheço pouco, faço o que está ao meu alcance: uma crônica para chamar a chuva. Uma amiga climatologista garante que de hoje não passa; por via das dúvidas, escrevo. A crônica se une à ciência na dança da chuva.
2. Precisamos da chuva. Não apenas por sua evidente função de tornar fecundo o solo, mas também por ser ela uma das formas com que o Céu se manifesta sobre a Terra. Aquilo que vem do alto traz não só a fertilidade das plantas, mas também a luz do espírito. É preciso que a semente dê lugar ao broto, que a potência dê lugar ao ato, que o pó dê lugar ao barro. É preciso que a chuva caia sobre nós.
3. Eu não chovo, tu não choves, ele não chove. Quem chove é um mistério. Desde pequeno, eu me intrigo com o verbo chover. A professora da escola primária disse que era um verbo sem sujeito. Que me perdoe a professora, mas aí eu percebo um sujeito oculto, não inexistente. Alguns diriam que o autor da chuva é São Pedro, mas também estão errados, a meu ver: Pedro tem as chaves, não a chuva. — O sujeito do verbo chover é Deus.
4. E como a nossa fragilidade se ressente da falta de chuva! Basta caminhar pelas ruas e prestar atenção no Concerto para Tosse em Sol Maior, interpretado pelos naipes de crianças, jovens, adultos e velhos. Oh pobres vias respiratórias! Oh tristes filas dos postos de saúde! E eu me lembro dos versos de Manuel Bandeira, que meu pai gostava de recitar: "A vida inteira que poderia ter sido e que não foi. / Tosse, tosse, tosse".
5. Na semana passada, acordei a Rosângela com uma crise de tosse que não parava. Para deixá-la dormir, mudei-me para o sofá da sala, mas a tosse continuava, seca e impiedosa. Às três da manhã, resolvi ir até a farmácia, onde encontrei um xarope. Foi o que me salvou; eu já estava me sentindo aquele personagem da novela Saramandaia que punha o pulmão pela boca. Ou seria o coração?
6. Não por acaso "A Tempestade" foi o título da última peça de Shakespeare, considerada o seu testamento poético. A tempestade, segundo o professor José Monir Nasser, simboliza uma ruptura no estado de coisas que impossibilita a perpetuação da mentira. Pela ação das águas, a realidade se torna clara, e a poeira dos autoenganos se dissipa. O mesmo acontece em outras peças de Shakespeare — Rei Lear, Otelo, Macbeth — e também na passagem bíblica do Dilúvio. A chuva propicia a redenção da verdade, a ordem que sobrevém ao caos. Depois que a tempestade produz os seus efeitos, resta a Próspero e Shakespeare, criatura e criador, pedir que os libertemos para a eternidade com nossos aplausos: "Assim como vocês obtém perdão por seus pecados / Eu posso, com as suas indulgências, ser libertado".
7. Vamos esperar a chuva. E que ela traga para nós a bondade, a beleza e a verdade.
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