Crônica do cão perdido
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de junho de 2017
por Paulo Briguet 

Sempre que saio de manhã para passear com o Cisco, ocorre-me a dúvida:
Para a direita ou para a esquerda?
Engana-se quem acha que vou sempre para a direita. Mas ontem, realmente, foi esse o sentido que escolhi. Caminhei em direção à Bela Suíça, bairro que antigamente era um bosque de eucaliptos.
Como meus sete leitores já sabem, gosto de rezar o terço enquanto passeio com meu cachorrinho. Ontem era segunda-feira, dia de mistérios gozosos, também chamados mistérios da alegria.
O primeiro mistério da alegria é a anunciação do Anjo Gabriel a Maria. Fui andando e rezando pela Avenida Madre Leônia, rua da minha santa. Andando, rezando e meditando sobre essa alegria que é receber diariamente o anúncio do nascimento de Jesus. Pedi a Deus: "Senhor, dai-me a alegria da anunciação!"
O segundo mistério da alegria é a visitação de Nossa Senhora a sua prima Isabel. Quando Isabel recebeu Maria, estava grávida de João Batista, no terceiro mês de gestação. Ao sentir a presença da Mãe de Jesus, João Batista estremeceu de júbilo dentro da barriga de Isabel. Fui andando, rezando, meditando e pedindo: "Senhor, dai-me a alegria da visitação!"
Quando virei a esquina da Rua Lausanne ruazinha de apenas um quarteirão e entrei na Santiago, comecei a rezar e meditar sobre o terceiro mistério da alegria: o nascimento de Jesus em Belém. Ao final do Pai-Nosso e das dez Ave-Marias, rezei o Glória, a oração de Fátima e pedi: "Senhor, dai-me a alegria do Natal!"
Eis que nessa hora o Cisco começa a latir e um cachorro preto e branco aparece do nada e pula nas minhas costas. Percebi ser um cão dócil e inofensivo, que à sua maneira pedia-me ajuda. Estava perdido. Magro, sujo, com um pequeno ferimento na pata, ele se parecia muito com a Luna, border collie do amigo Silvio Grimaldo. Mas era macho, então não era a Luna...
Logo se aproximou um casal de moradores do bairro e perguntou se eu conhecia aquele cachorro. Cisco, no meu colo, rosnava, querendo briga. O cão sem nome continuava dócil, embora desorientado. O casal deu comida e água para o amigão. Não sabemos se ele fugiu de casa, se ele se perdeu ou se foi abandonado por seus donos. De qualquer modo, segue aí a foto do cachorro perdido, com seu olhar doce e perplexo. Por enquanto, ele está sendo cuidado pelos rapazes que trabalham com a segurança do bairro.
Depois, continuei rezando o terço: faltavam os mistérios da apresentação no Templo e do reencontro do Menino Jesus em Jerusalém. Fiquei pensando naquele cachorro, em qual será o seu destino, e concluí que Deus ouve as nossas preces e pedidos com uma atenção absoluta. Ele nos anuncia, nos visita, nos faz nascer, nos purifica e, por fim, nos reencontra.
Pois eu era exatamente como aquele cão perdido, e Deus me trouxe de volta para casa. Senhor, dai-me a alegria da vida!
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