Imagem ilustrativa da imagem Cristo e César
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Quando assisto ao espetáculo de horrores oferecido pelo estamento político brasileiro — seja nos palácios e parlamentos, seja nas reuniões partidárias, seja nas assembleias sindicais —, consolo-me dizendo a mim mesmo que o maior rei de todos os tempos usava uma coroa de espinhos e teve por trono um instrumento de tortura.

Jesus de Nazaré nasceu durante o governo imperial de Augusto, aquele que foi considerado o mais glorioso dos césares. Mal havia nascido, os poderosos da época tentaram assassiná-lo a qualquer custo. Até hoje assistimos à luta entre o reinado de Cristo, que nos torna personagens da eternidade, e o reinado de César, que nos torna escravos do poder terreno. Há os que usam o nome de Cristo, mas buscam o poder de César; e há os que rejeitam qualquer menção ao nome de Cristo exatamente para que possam imperar melhor sobre a coletividade. De uma maneira ou outra, os adoradores da deusa política lutam contra o Reino de Deus.

Em 1241, o rei francês Luís IX mandou construir a Saint-Chapelle na Ilha da Cidade, situada no Rio Sena, em Paris. Há 14 anos, estive nessa linda capela gótica, cujos vitrais representam 1.113 passagens das Escrituras. S. Luís, conhecido como o rei-santo, ordenou a construção da Saint-Chapelle para abrigar a relíquia da coroa de espinhos de Jesus.

Durante a Revolução Francesa, a Saint-Chapelle foi fechada e transformada em escritório administrativo. Os revolucionários anticristãos não conseguiram destruir os vitrais da histórica igrejinha parisiense, que seria enfim restaurada entre 1846 e 1855. Ironicamente, os imensos arquivos ali instalados acabaram por proteger parte do patrimônio histórico-religioso. A coroa de espinhos foi retirada do local e hoje está abrigada na Catedral de Notre-Dame, situada a alguns metros, também na Île de la Cité. A própria catedral parisiense não escapou da fúria revolucionária: no final do século 18, os revolucionários a transformaram em Templo da Razão e até em depósito de mantimentos.

Não sabemos até hoje a que espécie vegetal pertenciam os espinhos que os soldados romanos, sob as ordens do governador Pôncio Pilatos, utilizaram para tecer a coroa de espinhos colocada sobre a cabeça de Jesus, conforme o relato de três dos quatro Evangelhos. A discussão botânica é irrelevante quando se sabe que a intenção dos algozes era ridicularizar a majestade de Jesus. No entanto, o fato mais absurdo é que aquele Rei está sendo coroado exatamente agora, no momento em que você lê estas palavras, pela continuidade dos nossos crimes e pecados.

Sempre que alguém coloca acima do amor ao próximo a sede de poder e a ilusão de suplantar a estrutura da realidade, está colocando mais um espinho na coroa de Jesus. A verdadeira coroa de espinhos não se acha em Paris, na Catedral de Notre-Dame; ela foi colocada em nossas mãos. Quem você deseja que reine: Cristo ou César?

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