Coração em praça pública
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
por Paulo Briguet 

Muitas vezes penso no conto de um escritor de nossa terra, meu amigo e médico Marco Antonio Fabiani, sobre um homem que viveu com o coração exposto à luz do dia. Identifico-me profundamente com aquele personagem, porque vivo assim: com o coração em carne viva, diariamente visto por meus sete leitores. Não estou reclamando, não. Viver e trabalhar dessa maneira foi um ato de livre-arbítrio, e sou feliz sendo assim. Todas as manhãs ofereço as batidas do meu coração à contemplação em praça pública.
Não vou dizer que é fácil. Sei que muita gente (talvez mais de sete leitores) reza por mim e quer o meu bem, mas também há aqueles cuja obsessão é me atacar e me derrubar. Neste domingo, por exemplo, eu estava me sentindo um pouco triste, por dois motivos: uma discussão idiota na rede social e uma saudade imensa de Aracy. Resolvi, então, ir à missa no Santuário de Madre Leônia, a santa da minha rua. Estou rezando de olhos fechados quando alguém se aproxima e se senta ao meu lado no banco da igreja. Olho para ver quem é e tenho uma alegre surpresa: trata-se de Dilza Dequech, uma das heroínas de nossa cidade, grande benemérita do Hospital do Câncer de Londrina e a última pessoa que fez minha mãe sorrir, no quarto 511.
Depois da missa, D. Dilza e eu conversamos rapidamente sobre o futuro da cidade. Ela me apresenta sua amiga, uma imigrante haitiana de sorriso franco e simpático, a quem está ajudando em sua nova vida no Brasil. As duas mulheres transmitem uma forte sensação de pureza e amizade. Ao nos despedirmos, peço à D. Dilza que dê um abraço no Sr. Nelson Dequech, também herói de nossa terra. Quantas vidas foram salvas por esse casal!
Volto para casa pensando em meu bisavô, Antônio Costa. Em sonhos e crônicas, sempre estou retornando à história desse homem, que aos 7 anos de idade, no final do século 19, foi deixado sozinho pela família portuguesa em Belém do Pará. A solidão daquele menino deve ter sido tão grande que sou capaz de senti-la dentro de minha alma até hoje.
Às vezes fico pensando: quem salvou meu bisavô? Imagino que alguém tenha estendido a mão àquele menino abandonado, possibilitando assim que ele viesse a encontrar um trabalho e formar uma família.
Ontem, assistindo a um programa sobre o Círio de Nazaré, comemorado no segundo domingo de outubro, vi a multidão de fiéis nas ruas da capital paraense e pensei: Talvez o menino Antônio tenha visto isso naqueles dias de abandono e solidão. É possível, aliás bastante provável, que meu bisavô tenha encontrado a força para prosseguir na Mãe de Deus. Penso que ela, servindo-se de seus instrumentos no mundo, ensinou meu bisavô a ler e escrever, da mesma forma que ensinara o Menino Jesus. Afinal, Maria é a maior Professora da humanidade.
Contemplando o mar de fiéis nas ruas de Belém, eu pensei que Antônio Costa esteve entre eles um dia. E Antônio gerou Maria, e Maria gerou Aracy, e Aracy gerou Paulo. E todos tiveram o coração nas mãos.
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