Imagem ilustrativa da imagem Conversa com o Woody Allen londrinense



Desde o primeiro momento em que vi André Simões, pensei comigo mesmo: "Eis um escritor". Nossa primeira conversa aconteceu há 12 anos, no antigo sebo do Fakir, no Centro Comercial, e o assunto principal foi cinema — especialmente, os filmes de Woody Allen. Hoje o André lança em Londrina o seu segundo livro, "23 minutos contados no relógio". O primeiro, "A Arte de Tomar um Café", tive a honra de prefaciar. Agora, tive a honra de entrevistá-lo. Conheçam, leiam e admirem o escritor André Simões, nosso Woody Allen das letras londrinenses. (Ah, e leiam a entrevista completa no portal da Folha).

Paulo Briguet: Como é que a cidade e as amizades fizeram você caminhar no sentido da literatura?
André Simões:
Você se refere à cidade de Londrina especificamente ou à "cidade" como uma metonímia para meio urbano? Acho que Londrina, né? Mas a vida urbana também me é essencial de qualquer modo, minha visão de vida é muito citadina, meus hábitos, minhas preocupações... Engraçado que algumas das minhas referências artísticas, mesmo morando em grandes cidades, notoriamente gostavam de mato, de bichos: Tom Jobim, Rubem Braga, aí em Londrina o Pellegrini... Eu não, eu gosto de elevadores e estabelecimentos 24 horas. Quanto a Londrina: eu nasci em São Paulo, moro desde 2013 em São Paulo, adoro São Paulo, não pretendo sair daqui. Mas sou londrinense, não há o que se possa fazer quanto a isso. Toda a minha formação é londrinense (morei em Londrina de 1988 a 2010, nasci em 1985), minhas referências são londrinenses, meus sonhos são londrinenses, minhas amizades longevas foram quase todas feitas em Londrina. Se penso num personagem característico (um professor carrasco, uma femme fatale, um bebum folclórico), meus modelos invariavelmente vêm de Londrina. Então certamente devo a Londrina minha forma de produzir e meu modo de ser, de maneira geral. A época do colégio me foi particularmente marcante. A maioria das pessoas, você inclusive, fala da época de universidade como definidora em vários aspectos, mas para mim os anos de colégio foram mais fundamentadores em paixões, formações, revoltas, experiências. Escrever é uma forma de não decepcionar aquele André adolescente. Acho que a coisa de escrever, para mim, vem muito da timidez. Aquela sensação, tantas vezes repetida, de não saber o que dizer numa conversa... Aí você vai para casa, pensa, "mas eu poderia ter dito isso!", e imagina como seriam as réplicas, tréplicas. Às vezes, esses dissabores do cotidiano podem ser consertados por meio da fantasia.

Paulo Briguet: Quais e como são as suas grandes influências literárias e o seu processo criativo? Imagino que a música esteja diretamente relacionada à sua escrita.
André Simões:
Minhas influências literárias são amplas, e frequentemente não vêm de escritores em sentido mais estrito. A canção popular e o cinema, principalmente, influenciam muito meu modo de escrever. Woody Allen, Ingmar Bergman, Cole Porter e Chico Buarque (o cancionista, não o romancista) são influências tão grandes em mim quanto Cortázar, Rubem Braga, Carlos Heitor Cony, Nelson Rodrigues, Vinicius de Moraes — para citar alguns nomes dos quais conheço as obras com profundidade. E há também outros artistas dos quais conheço um percentual pequeno da obra, mas me fizeram grande impressão; outros criadores não diretamente ligados à expressão artística... Procuro estar aberto a influências as mais díspares: o jeito de alguém falar apaixonadamente de algo de que gosta pode me sensibilizar e servir de referência para algo que eu vá escrever, por exemplo. O processo criativo varia: de modo geral, quanto mais curto o texto, mais a espontaneidade e o improviso são de valia. Uma crônica muito ensaiada volta e meia descamba para uma feição ensaística, acaba sendo prejudicada. Textos de maior fôlego me exigem certo roteiro prévio pra escrever: preciso ter bem definida uma ideia central, de onde estou vindo e para onde estou indo, o que quero com aquela situação e aquele personagem. Mas muitas vezes esse esboço é meramente mental.

Paulo Briguet: O que é que o Dimas, seu grande personagem, falaria sobre esse livro? E o João Ângelo Moraes, qual é a dele?
André Simões:
A orelha do meu livro relata o que se deu quando mostrei a Dimas o original do "23 minutos contados no relógio", livro em que ele desponta como protagonista da maior história. Ele é que deu ao livro a definição "contos de sexo, morte e fantasia embebidos em humor cínico", gostei e adotei. Dimas é uma espécie de super-herói do descompromisso, um ultraindividualista que não é egoísta. A ideia para o João Ângelo Moraes veio da experiência de repórter, do desespero ao receber pautas pedindo por entrevistas com personagens de características muito específicas, sem nenhuma referência de onde encontrá-los, com um prazo exíguo para fechar o texto. Volta e meia havia uma tentação de "e se eu inventasse um personagem com essas características que estão me pedindo", mas acho, até onde me lembro, que em jornal nunca sucumbi ao pecado. Mas em conto me dei a esse luxo de criar um personagem que, sempre com o mesmo nome, aparece em distintas histórias com novas características bizarras, que fariam a alegria de um pauteiro procurando por histórias inusitadas. No começo pensei em criar um livro só com as histórias de João Ângelo Moraes, mas depois achei que ficaria cansativo, resolvi que quatro contos davam pro gasto: o cara que se recusa a cagar fora de casa, o colecionador de multas de trânsito, o adicto em molho de mostarda e o melhor cantador de bingo, ops, intérprete de bingo do mundo.

Paulo Briguet: Como se deu essa divisão do livro em quatro partes? Fale um pouco sobre cada uma delas.
André Simões:
Por vezes, é difícil estabelecer a fronteira entre conto e crônica. Mas queria que este meu livro novo, em oposição ao anterior, "A arte de tomar um café", tivesse textos de característica mais narrativa, para que eu tivesse segurança em chamá-lo de livro de contos, ainda que alguns tenham sido publicados originalmente em jornal, com ligeiras modificações na passagem para livro. O texto do Dimas originalmente era curto. Fui engrandecendo-o, em grande parte, com crônicas minhas, mais puxadas para o "comentário cotidiano", de que gostava muito, mas não cabiam na proposta deste livro. Como o personagem do Dimas me parecia encantador, transformei-as em pensamentos dele, fazendo crescer a história. O risco seria transformar o todo numa colcha de retalhos, mas acho que consegui costurar bem, dar unidade ao conto — até porque o Dimas, obviamente, é uma projeção fantasiosa de mim mesmo, um eu sem superego. E os costumes mudaram muito de 2013 para cá: algumas das coisas que escrevi, simplesmente não teria mais coragem de escrever. Então, atribuir ao Dimas me foi uma ótima solução. Percebi apelo em sua história e a coloquei numa seção à parte, iniciando o livro. E é a parte do livro da qual os leitores mais parecem se lembrar, Dimas vem me dando retorno. A segunda parte são contos de natureza variada, dispostos em ordem que, espero, crie uma lógica de condução. Do João Ângelo Moraes, já falei na questão anterior. O "livro de orações" contém textos que estão distantes tanto da narrativa quanto da crônica mais corriqueira, cotidiana. Em comum, há a linguagem em tom de pregação e certa preocupação moral — embora pendendo para o inusitado e, por vezes, para o absurdo. É uma seção mais experimental do livro.

Paulo Briguet: Você é, com o perdão da palavra, um transgênero literário: da crônica para o conto, do conto para a crônica para o conto, do conto para a poesia em prosa. Quando é que sai o romance? Tem planos?
André Simões:
Venho trabalhando muito com letras de canção também, tanto com criações originais quanto com versões de canções, do inglês para o português. São versões rigorosas, em que busco manter o padrão original de métrica e rimas, cuidando da prosódia em português e adaptando referências geográficas e temporais. Também estou trabalhando como pesquisador: pretendo fazer doutorado com um projeto envolvendo canção popular, vamos ver se me aceitam. Na área jornalística e documental, devo lançar no ano que vem, pela editora 34, um livro sobre o músico Francis Hime, escrito em parceria com sua filha, Joana. Te mostrei o esqueleto de um romance. Quero voltar a trabalhar nessa ideia, mas como se trata de imaginar uma sociedade distópica, sinto que é preciso esperar um pouco mais de definição em nossos rumos políticos, para que eu direcione mais adequadamente meu sarcasmo. De modo que, na fila de meus projetos de mais longo fôlego, vêm antes a gravação de versões minhas em português para standards americanos (já há alguns contatos animadores nesse sentido com músicos e produtores) e a realização de uma versão em português — seguindo o mesmo modelo de rigor, não só nas árias como nos recitativos — da ópera "Porgy and Bess".

Serviço — Lançamento do livro "23 minutos contados do relógio", de André Simões. Hoje (18 de outubro), às 19h23, no Sesc Cadeião (Rua Sergipe, 52).

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