Conversa ao pôr-do-sol
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
por Paulo Briguet 

Liguei para o Dimas nesta última semana do ano. Ele agradeceu a lembrança, com sincera emoção na voz. Contou que, no período em que esteve preso, muitas vezes se lembrava dos tempos em que, eu menino e ele adolescente, morávamos em São Paulo. Houve uma ocasião em que quebramos o braço quase no mesmo dia, naquela época em que a medicina costumava engessar os braços quebrados da meninada. Deitado na cama da cela, Dimas reviu o antigo gesso que nos tornou parecidos e companheiros na adversidade. Refletindo sobre o episódio, concluí que o acidente simboliza as situações que enfrentaríamos ao longo da vida.
Não quebramos apenas o braço: quebraríamos também a lei, a medida, o tempo, o corpo e a alma. Nossa alma, Dimas, carrega uma hera de cicatrizes, uma teia de rupturas, tatuagens invisíveis do que vivemos em caminhos separados, mas essencialmente parecidos. O gesso nos une até hoje.
Pode-se dizer que eu tive mais sorte que você, Dimas. Meus pais me ajudaram muito; encontrei a mulher certa para me colocar na linha, com amor e sensatez; ela me deu um filho lindo e surpreendente; tenho um trabalho, livros a escrever e muitas tarefas a cumprir. Mas também andei por veredas de assombro, desespero e solidão. Permiti, durante um tempo perigosamente longo, que o Inimigo ditasse os meus passos. Agora me sinto mais forte, menos só, embora ainda me angustie o desconcerto do mundo.
Você não viu, Dimas, mas eu estava por perto, de braço quebrado, quando a sua esposa morreu, deixando-o devastado em um universo hostil. Eu estava ali quando você voltou às drogas, quando vendeu tudo que tinha para sustentar o vício, essa coisa que se apresenta como liberdade mas é a maior de todas as escravidões.
No dia em que você foi preso, Dimas, não sei se você viu um menino que acompanhava a cena silenciosamente, com os olhos grandes de espanto. Esse menino era eu, com o braço ainda engessado. Aquele gesso nos tornou irmãos na dor. Representa os nossos ais. Ele é o nosso território comum, onde falamos o mesmo idioma afásico. Sombras, Dimas, também fazem parte daquilo que somos. E às vezes nos engolem. A boa notícia é que podemos sair do abismo, como Dante saiu do Inferno para ver as estrelas.
Quando você estava entre a vida e a morte no hospital, meu amigo, eu devo ter sentido uma das minhas tristezas de origem inexplicável. O osso que quebramos naquele dia tão remoto, Dimas, dói nessas horas, avisa-me de que algo muito errado está acontecendo.
Outro dia um padre amigo me disse que o nome Dimas vem do grego e significa pôr-do-sol. Segundo um evangelho apócrifo, é o nome do ladrão que pediu perdão a Jesus no Calvário. Salvou-se no último instante, pouco antes que a luz se escondesse. Tantas vezes eu me senti igual a esse pobre homem, Dimas. Se o Bom Ladrão foi perdoado, todos nós temos uma esperança. O Sol ainda não se pôs.
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