Imagem ilustrativa da imagem Confissões de um ex-ateu (1)
| Foto: Paulo Briguet



Aconteceu há mais ou menos 20 anos. Mergulhado numa profunda angústia, desci a avenida caminhando até a beira do lago. Parei por alguns momentos sobre a ponte do Igapó, observando um pescador à margem; depois segui adiante, ao encontro de dois amigos no bar. Era noite.

Naquele tempo eu não rezava. Quando vi Marcelo e Patrícia, sentados a uma mesa do bar com vista para a avenida e o lago, não agradeci a Deus como deveria ter feito: apenas esbocei um sorriso. A presença daqueles amigos era um refrigério para minha alma, embora eles não imaginassem isso. O garçom perguntou o que eu iria beber.

Quando a bebida chegou, ergui o copo em direção à Patrícia, e disse com um sorriso melancólico:

— Está vendo isto, minha amiga? É amor.

Um cachorro passou pela calçada, rumo ao pescador na beira do lago. Apontei-o e declarei:

— Reparou naquele cachorro, Marcelo? Também é amor.

Enquanto bebia com eles, que tentavam discutir outros assuntos e sorriam compreensivelmente diante de minha loucura, eu apontava todas as coisas à nossa volta e repetia o estranho bordão.

O teto do bar era alto e feito de palha. Pendurados em grossas vigas de madeira, castiçais de ferro iluminavam as mesas. O garçom corria com sua bandeja rumo a um grupo de onze ou doze rapazes e moças que haviam acabado de chegar. Indiquei o teto, os castiçais, o garçom, a bandeja, os outros clientes do bar:

— Não se enganem, não se enganem. Tudo isso é amor.

Patrícia sorriu, Marcelo perguntou se eu tinha passado a ouvir música sertaneja ("É o amooor..."). Não achei graça na piada; meu amigo percebeu e trocou de assunto. Fiquei em silêncio até a volta do garçom. Enquanto ele anotava o pedido em seu bloquinho, comentei em voz baixa com Patrícia:

— Não dê na vista, mas pode ter certeza de que também é amor.

A partir daí, percebi que estava sendo chato e me calei de vez. Fechei os olhos e vi meu pai, minha mãe, uma criança. Lá fora, os carros vindos do shopping iluminavam o asfalto da Avenida Higienópolis. Abri os olhos quando passava pelo cruzamento um carro branco, com uma mulher ao volante e um homem ao seu lado; no banco de trás havia um menino. Pensei que talvez fossem felizes, mas já não expressava nada a meus amigos. Senti-me agradecido por eles serem tão amáveis com a minha estranheza.

Os recém-chegados cantaram parabéns e eu senti que era hora de ir. Paguei a minha parte da conta, abracei meus amigos e voltei para casa pelo mesmo caminho, subindo a Higienópolis.

Por que me lembrei disso agora? Porque no último domingo atravessei a ponte do Igapó rezando meu terço e fiz a foto que ilustra esta coluna. Era uma linda manhã; a garça estava parada no mesmo lugar do pescador. E foi passando por ali, mais ou menos 20 anos atrás, que olhei para as águas do Igapó e repeti as palavras do centurião romano:

— Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo.

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