Cidade, memória
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de agosto de 2017
por Paulo Briguet 

Vasculhando antigos escritos, adivinhem quem eu encontro? Londrina, é claro:
1. "Porque eu não era de lugar nenhum, procurava uma cidade para ser minha, e encontrei você. Esperando o sinal abrir na esquina das avenidas JK e Higienópolis, eu não passava de um menino adolescente. E você, mulher moça. Perguntei se a JK e a Higienópolis eram paralelas ou perpendiculares. Você riu com superioridade malícia e respondeu: As duas coisas. Foi nesse instante que eu me vi presa de um amor inexplicável e absoluto". (Cidade, vida)
2. "Esta avenida tem fim? Difícil responder. Subo o que seriam os últimos quarteirões, depois do lago. Carros lotados de garotas disparam no sentido shopping. Encontro uma nova avenida, a de Madre Leônia. Mas, enganado pela rotatória, faço um movimento circular, e me vejo voltando para a cidade. Noto o recorte dos prédios, composição involuntária de Mondrian, e as janelas no acende-apaga da quase noite, obra desaparecida de Kandinsky. (...) Não é à toa que esta avenida (supostamente) termina perto de uma igreja. Homem de pouca fé, percebi ter criado uma oração torta para a cidade que vejo aqui de cima. Uma prece tola para esse caminho de asfalto que o russo Larionoff chamou de Higienópolis. Ave, Higienópolis." (O fantasma da Higienópolis)
3. "Se aquele toca-discos resolvesse cantar de novo, que grande repertório! Ouvir Charlie Parker e Noel Rosa em discos de vinil, na copa da velha república da Rua Humaitá, número 143. Mas a vitrola pifou; os discos foram roubados; a velha república, demolida; o número 143, esquecido, menos por ele mesmo; e um edifício se ergue no lugar disso tudo, indiferente ao tempo e às outras coisas. Mas o edifício da Humaitá também carrega o fardo de sua própria memória, e um dia terá o seu dia deixe estar, jacaré, que o lago há de secar." (Memória dos objetos)
4. "Na noite de 24 de outubro de 2000, terça-feira, o táxi parou no sinal vermelho. Esquina da Avenida Higienópolis com a Rua Piauí. Ventava. Quando o sinal abriu e o motorista engatou a primeira marcha, aconteceu. Um grande baque. Parecia bomba, ou trovão. Era uma árvore com dez metros de altura. Caiu de podre no meio da avenida. O motorista foi hábil; conseguiu frear a tempo. Por dois segundos, a árvore não atingiu o carro. Por três segundos, não esmagou nossas cabeças." (A árvore e o desemprego)
5. "Ele se recorda do dia em que uma senhora de 90 anos cercou a república e espiou pelas frestas e janelas, garantindo que seu finado marido estava lá. Para ela, havia a bílis negra do passado: uma Londrina concreta, uma Londrina abstrata. Uma Londrina de fato, uma Londrina do pensamento. O repórter das coisas, então só estudante, se escondeu atrás do sofá com sua enigmática amiga, para que a velhinha não o confundisse com o marido morto. Agora, a república, a velhinha de 90 anos e a enigmática amiga vivem apenas na Londrina do pensamento. Nunca mais poderá entrevistá-las." (Repórter das coisas)
(Dedico esta coluna à memória de Gilberto Testa.)
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