Chico Torres, o estudante eterno

Aos leitores da Avenida Paraná, mostro hoje uma crônica escrita por meu pai, Paulo Lourenço, e publicada em nosso livro "Diário de Moby Dick" (1996). Trata-se de um perfil de um legendário morador da famosa Casa do Estudante de São Paulo. É um pequeno exemplo de como meu pai sabia emocionar com as palavras:
"Casa do Estudante, Faculdade de Direito de São Paulo. 1961. Desse ano são as primeiras lembranças de Chico Torres. No velho e manjado prédio do final da Avenida São João, ele ocupava o apartamento individual do primeiro andar (era o único desse pavimento, pois o restante era tomado pelo salão de jogos), lugar livre da cobiça alheia, por causa do barulho ensurdecedor dos bondes, a poucos metros dos ouvidos. Com certeza já passara dos 50 anos, que o físico miúdo e os cabelos abundantes e encarapinhados escondiam à primeira vista.
Sempre de gravata (de uso obrigatório na comunidade acadêmica), o único terno realçava ainda mais a magreza que viera com o passar dos anos. Moreno carregado, produto de uma etnia indefinida de Minas Gerais, sua figura discreta era vista com frequência também nos corredores da Faculdade, no Largo São Francisco, onde cursava sempre as mesmas matérias, ano após ano, de não sei que turma (pelo direito adquirido estava livre da jubilação). Corria que fora colega de classe da maioria dos professores (alguns já com tempo para aposentadoria) e do próprio Jânio Quadros, presidente da República. Também se dizia que fora empregado dos Correios na juventude, do que lhe adviria modestíssima pensão, após afastamento por tuberculose (por causa disso, talvez, não fumava, e sempre que alguém lhe oferecia cigarro, com voz empostada de orador, incrivelmente poderosa em indivíduo tão pequeno, dava resposta pronta: "Não cultivo pequenos vícios").
Chico Torres não tinha amigos íntimos, nem parentes conhecidos, nem amores. Também as discussões sobre política (papo que mais rolava entre os estudantes) não o atraíam, embora sempre estivesse por perto dos grupos reunidos para uma cervejada nos bares das redondezas, parecendo atento às conversas, mas na verdade indiferente a esses assuntos de uma geração que não era a sua. Chico vivia para duas coisas: a rotina sedimentada durante anos, dividida entre o humilde dormitório na São João, andanças pelas imediações e a viagem diuturna ao Centro, rumo à Faculdade. No mais, sua existência se resumia em uma paixão avassaladora, quase religiosa e que não admitia infidelidades: bebida.
E não tomava outra coisa que não cachaça pura, a toda hora, de manhã à noite, a intervalos regulares exigidos pela saúde débil. O estado normal de Chico era sempre o de quem havia bebido de uma a um número indeterminado de doses. Mas não pensem que alguma vez cometeu qualquer inconveniência ou excesso por causa da bebida. Ao contrário, mesmo ligeiramente trôpego e com a voz já pastosa, conseguia ser o de sempre: delicado no trato com todos os jovens colegas, discreto e recatado ao máximo. Das farras mais agressivas, como penduras e brincadeiras não raro pesadas com a vizinhança e transeuntes, nunca participava. Também nunca se ouviu dele a mínima restrição a essas travessuras.
Por essa simplicidade singular, por não alimentar ambição de espécie algumas nem ser capaz de abrigar maldade, pela perseverança em atravessar a vida da maneira que escolheu, pacífico como um Gandhi caboclo, Chico Torres tinha o respeito e os cuidados de todos nós. Ai de quem se atrevesse a ofendê-lo! (Haveria alguém maldoso o bastante para isso?)
Conhecíamos a pobreza em que vivia. Nunca precisou pedir (por certo não o faria) a quem quer fosse mais uma dose ou um prato de comida: a comunidade toda se antecipava em financiar, sob revezamento, esses modestos gastos (afinal uma pinga ou duas de vez em quando ou mesmo um comercial não afetariam o bolso de ninguém). Em matéria de comida Chico só consumia o pouco para manter-se em pé: em caso de necessidade havia sempre o recurso ao Restaurante XI de Agosto, nos fundos da faculdade, onde a extensa conta dele, por orientação passada de presidente a presidente, nunca deveria ser somada.
Naquele sábado, no final do ano de 1970, já formado e ainda morando em São Paulo, recebi em casa a notícia da morte de Chico Torres. Morrera durante o sono, de mal súbito, discreto como sempre, no quartinho da Casa do Estudante (já não havia mais bondes). O velório (as despesas foram custeada por uma "lista") foi lá mesmo, no salão de jogos. A Casa nunca recebeu tanta gente: estudantes, professores, advogados, promotores e juízes, muitos vindos do interior.
Contrastando com a pobreza do homenageado em vida, calou fundo a pompa dos discursos emocionados e que tiveram prosseguimento no Cemitério da Consolação, ao pé do túmulo que alguma boa alma não sei de que forma conseguiu para ele.
Essas recordações me vieram com uma fita retirada na locadora de vídeo. Nome do filme? A Lenda do Santo Beberrão..."
Crônica de Paulo Lourenço, escrita em 1991.





