Carta de uma leitora ofendida

"Paulo,
Resolvi escrever à coluna Avenida Paraná, mas peço que não revele meu nome, porque não quero ter minha página invadida por militantes revoltados. Gostaria de falar sobre a peça do FILO que foi apresentada na UEL há duas semanas. Acho importante me manifestar agora, já que o festival termina neste final de semana.
Foi acertada a decisão da Reitoria de não permitir essa apresentação dentro da Capela Ecumênica da Universidade. Pessoalmente acredito que não se pode pedir respeito a uma causa profanando o sagrado de outros indivíduos. Embora me solidarize com o direito de cada um ser quem é e exigir uma sociedade onde possa existir e viver à sua maneira, não acredito que isso deva ser feito à custa da negação da fé alheia.
Estive na tal peça. Saí perplexa e chocada com tamanha ousadia. O apelo em transformar tudo em coisa rasa, em nome de uma causa, me deu muita tristeza. Em vez de evocar sentimentos nobres, me causou angústia. Eu queria muito abraçar aquela atriz e dizer a ela: Me envergonho de viver em um mundo onde tua dor é tanta que precisas manifestá-la dessa maneira. Sinto por você e sinto muito, ainda muito mais, por nós, por havermos chegado a esse ponto.
Várias coisas me chocaram na peça. O que mais me chocou foi usar trechos da Bíblia para justificar comportamento libidinoso, mas acima de tudo, desmerecer a natureza divina do Cristo e simular a Última Ceia, distribuindo pão e vinho para os participantes comungarem com o personagem.
O tempo todo, enquanto essas cenas se sucediam, eu só pensava no quão acertada fora a decisão de não permitir a utilização do altar da capela para tamanho descalabro.
Olha, Paulo, não sou exatamente mente fechada. Tenho e aceito amigos de todos os tipos, porque mais me importa o caráter da pessoa do que qualquer outra coisa. Mas a peça me causou muita tristeza. Percebi muita dor no discurso proferido. Muita dor e revolta.
Jesus é modelo, não é massa de modelar. Ele é amor, acolhida dos pecadores, é ideal a ser alcançado e não pode ser grotescamente vilipendiado. Tentaram. Levaram seu corpo à cruz junto a ladrões. Nem assim ele se igualou a eles. Ao contrário, elevou lindamente um deles aos céus, no momento de sua morte, pois aquele reconheceu sua natureza divina e se arrependeu dos pecados.
Minha intenção era dar esse assunto por encerrado, mas resolvi escrever a você depois de ler um artigo, publicado na Folha, em que uma religiosa anglicana deu a entender que a peça foi respeitosa com a Pessoa de Jesus.
Como assisti à peça do Filo e fiquei imensamente chocada, assim como as amigas que me acompanharam, gostaria de dizer que tenho uma visão totalmente oposta. Concordo com as notas emitidas pela Arquidiocese de Londrina e pelo Conselho de Pastores, e acredito que o Festival Internacional de Londrina deve um pedido de desculpas à comunidade cristã de Londrina, que constitui a maioria da nossa população.
Um forte abraço de sua leitora."
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