Imagem ilustrativa da imagem Carta aos meus pais
| Foto: Acervo pessoal



Aracy e Paulo,

Hoje vocês completam 50 anos de casados. No dia 13 de julho de 1968, o jovem bancário Paulo Lourenço e a jovem professora Aracy Costa Briguet disseram sim na capela da PUC, em São Paulo. Meio século depois, aquele sim continua gerando frutos de esperança, sacrifício e amor.

Por uma dessas curiosas coincidências (que de acaso não têm nada), seus dois filhos, Paulo e Fernanda, nasceram respectivamente nos dias 10 e 17 de julho. O aniversário de casamento ficou no meio do caminho temporal entre os aniversários de nascimento. No meio do nosso caminho havia vocês — e sempre haverá, graças a Deus.

Nestas manhãs frias de julho, alegram-me a beleza do céu e a floração dos ipês. Quando fui passear com o Cisco, encontrei o Seu Lourival mais uma vez vendendo bijus na esquina da Higienópolis. Tenho certeza de que você, pai, escreveria uma bela crônica sobre o sorriso do Seu Lourival. Poderia também falar sobre os meninos da caverna da Tailândia. Tenho saudade das suas crônicas, pai. Elas continuam sendo uma fonte de inspiração para mim. Dias atrás eu estava relendo o livro que você deixou e ainda não foi publicado. Um dia será!

Quando penso em vocês, não posso deixar de lembrar os enormes sacrifícios que fizeram por nós. Penso em você, mãe, acordando antes das seis para dar aulas de história na periferia de São Paulo. Para não nos acordar, você se trocava no escuro. Um dia, colocou um pé de sapato de cada cor — e disse aos alunos que estava na moda!

E você, pai, quando tinha 18 anos, foi rejeitado como aluno em um cursinho de São Paulo. Disseram-lhe que um rapaz pobre do interior não tinha a mínima chance de ser aprovado na famosa Faculdade do Largo São Francisco. Pois você estudou sozinho durante o ano inteiro, trabalhando durante o dia — e passou.

Depois de formado, você viu seus melhores amigos entraram para a luta armada. Mas preferiu formar uma família: em vez de mudar o mundo, criar o seu mundo. Obrigado, pai, por escolher a vida, e não a morte.

Quando chegava julho, vocês se desdobravam para as nossas festinhas de aniversário. Que capricho! Que dedicação! Que alegria! Você, Aracy, ficava até a madrugada preparando bolos e doces. E você, Paulo, na minha festa de
três anos, ajudou a cuidar de tudo, mesmo doente e recém-saído de uma internação, como vim a saber muito tempo depois.

O anjo das dez passava às dez horas para saber se as crianças já estavam dormindo. Hoje sou eu que falo desse anjo para o Pedro. Acho que a Fernanda também fala sobre ele para a Liz. Pedirei ao anjo dos seus netos que leve esta carta até vocês.

Obrigado, mãe. Obrigado, pai. Graças a vocês, aprendi que saudade é apenas um outro nome da eternidade.

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