Imagem ilustrativa da imagem Carta ao Neymar
| Foto: Gabriel Bouys/AFP


Caro Neymar,

Acho que você jamais lerá esta carta. Você é um dos maiores ídolos do futebol mundial; eu sou apenas um cronista do interior do Brasil. Você tem milhões das fãs; eu tenho sete leitores. Você tem nos pés a alegria — mesmo que fugaz como um grito — de todo um país. Eu tenho nas mãos apenas estas palavras que escrevo agora.

Escrevo em nome de meu filho, que tem oito anos de idade e é seu admirador. Ele realmente espera que você faça uma grande Copa do Mundo e conquiste o hexa para o Brasil. Quem já viu muitas Copas, como eu, sabe que isso não é fácil. Grandes jogadores que vi em ação não tiveram essa alegria, especialmente aquele time de 1982, que encantou o mundo quando você nem era nascido.

Muitos o criticarão por você ter chorado depois do jogo contra a Costa Rica; não eu. Também não vou dizer que fiquei contente com as suas repetidas quedas dramáticas, inclusive aquela do pênalti, nem com aquele gesto gratuito que lhe rendeu um cartão amarelo. Dos palavrões, nada direi; nós também dissemos vários. Mas o choro eu entendi.

Aquele seu pranto depois do jogo me fez lembrar a história de São Cristóvão. Ele era um homem gigantesco e temido cujo trabalho era carregar os viajantes nas costas entre as margens de um rio. Certo dia, aparece-lhe um menino que pede para atravessar o rio. O gigante leva o menino com imenso esforço; nunca havia carregado peso igual na vida. Ao final da duríssima travessia, o menino lhe explica o porquê de tanto peso:

— É que eu levo comigo todos os pecados do mundo.

Daí o significado do nome Cristóvão: aquele que leva Jesus. Inspirado nessa história, o maior poeta brasileiro escreveu versos eternos: "Teus ombros suportam o mundo/ e ele não pesa mais que a mão de uma criança."

Peso incomparavelmente menor, mas ainda assim muito forte, todos nós carregamos em nossas vidas. Sobre a Copa, deixe-me explicar que não é só futebol: é o peso das dores e desencantos de uma nação inteira. Uma nação que sofre morticínios diários no corpo e na alma. Uma nação que vê um filho morrer a cada nove minutos. Uma nação desamparada e perplexa. Uma nação desconfiada e ofendida. Uma nação que precisa urgentemente de compaixão e caridade; de perdão e justiça; de lei e ordem; de inteligência e decência; de alegria.

Para mim é profundamente simbólico o fato de você ter marcado o seu primeiro gol na cidade de São Petersburgo. É a cidade de um grande homem chamado Fiodor Dostoievski, escritor russo do século 19. Certa vez ele disse uma frase que poderia orientar você, mas todos os brasileiros:
— Senhor, fazei-me digno do meu sofrimento.

O Brasil inteiro sofreu muito nos últimos anos, Neymar. Tudo que pedimos a você é uma pequena dose de alegria que nos faça sorrir de novo, ao menos por alguns instantes. Lembre-se que há muitos meninos iguais ao Pedro esperando essa alegria que levarão por toda a vida. Queremos as lágrimas de alegria que o menino Pelé derramou há 60 anos.

Levante, Neymar. Faça o Pedro sorrir.

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