Imagem ilustrativa da imagem Carta a uma amiga distante
Retrato de M. Nesterova, por Mikhail Nesterov (1905)



Querida amiga,

Meu pai e minha mãe morreram de câncer. Cedo ou tarde, é provável que eu tenha o mesmo destino. Fiquei sabendo que você teve a doença, passou por uma cirurgia e está sendo submetida a tratamento quimioterápico.
Quando recebi a notícia, pela voz da mulher que mais amo no mundo, e que também é sua amiga, pensei numa longínqua manhã de sol em que eu e você conversávamos na antiga república da Rua Humaitá. O sol de meio-dia se refletiu nas vidraças, você sorriu e por um momento pensei: "Sou feliz". Na época, eu não acreditava em Deus nem no amor eterno, que são precisamente as razões da minha felicidade hoje. Aquele momento de felicidade era um prenúncio, um aviso dos céus; espero que também você a tenha encontrado.
Na época — quase 30 anos atrás! — éramos jovens e cheios de sonhos. Embora um tanto egoístas, (principalmente eu...), procurávamos fazer o bem um ao outro. Mas, por minha máxima e exclusiva culpa, por minha devoção delirante ao falso deus prazer-poder, acabamos nos afastando. Constato, surpreso, que não a vejo desde o dia do meu casamento com Rosângela, naquela sexta-feira em que choveu tanto.
Agora eu me vejo rezando por você, torcendo por você, pedindo a Deus, por intercessão de Nossa Senhora, que você viva muitos anos mais ao lado de sua família, de seu marido, de seus filhos. Que você possa fazer as coisas que ama: viajar, escrever, aprender idiomas, conhecer pessoas e lugares, viver o presente, aquilo tudo que eu hoje chamo de Presença.
Naquela manhã na república, fomos interrompidos por alguém que batia à porta. Era uma velhinha com mais de 90 anos. Procurava por seu marido. "Eu sei que ele está aí!", dizia-nos a mulher, com um sorriso entre esperançoso e angustiante. Tentamos acalmá-la, explicamos que aquela casa era uma república de estudantes, que seu marido certamente não estava ali. Mas ela insistia. Por algum motivo, ela acreditava que o seu companheiro se achava na velha casa da Rua Humaitá, número 143.
Minutos depois, um casal bateu à porta da república. Eram a filha e o genro da velhinha, moradores da vizinhança. "Mamãe, o papai não está aí!", dizia a mulher, docemente. "Faz muito tempo que ele nos deixou." Com alguma dificuldade, o casal conseguiu convencê-la de que sua busca era infrutífera.
Nunca mais vi aquela senhora. Hoje, com toda certeza, ela está no Céu, na companhia de seu amado esposo. Lá também estão Aracy e Paulo, que eu perdi para o câncer e ganhei para a eternidade.
Sabe, minha amiga, a verdade é que eu sou sujeito muito burro. Demorei anos, décadas para perceber que o caminho mais seguro para a vida é o perdão. Ao perdoar, nós ressuscitamos — quantas vezes forem necessárias. Por isso, através desta carta no jornal, peço perdão por alguma dor que eu tenha causado. Nunca é tarde para renascer.

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