Carta a um pai de família assassinado
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de setembro de 2018
Paulo Briguet 
Caro Rafael,
Quando recebi a notícia de sua morte, senti algo que não é apenas medo, não é apenas revolta, não é apenas tristeza: é a certeza de estar vivendo em um país dominado por bandidos, e bandidos que querem acabar com a nossa vida. Aos poucos, eles estão conseguindo: roubaram o nosso dinheiro, roubaram a nossa esperança, roubaram o nosso futuro - e agora tentam roubar aquilo que restou. Os bandidos querem nos matar.
Entre os crimes, o pior é o assassinato; entre os assassinatos, os piores são o latrocínio e o terrorismo. Ambos são motivados pela inveja: no primeiro caso, a inveja do ladrão; no segundo caso, a inveja do ideólogo. Não são as armas de fogo nem as armas brancas que cometem esses crimes. O culpa não é do revólver nem da faca, nem da injustiça social nem da desigualdade; a culpa é do mal que habita o coração do criminoso, e daqueles que o justificam e protegem. Ou o Brasil entende isso, ou será assassinado.
Sim, porque é de latrocínio que estamos falando quando vemos o que fizeram com o nosso país ao longo dos últimos 15 anos. Há um vínculo fatal entre o bandido que rouba para matar e o bandido que mata para roubar; entre aquele que dispara contra um pai de família e aquele que permite a morte de um brasileiro a cada nove minutos. Estamos indefesos, desarmados, impotentes, perplexos. A todo instante somos xingados, desprezados, caluniados, censurados. E agora, lá da prisão, querem disparar o tiro fatal contra nossa cabeça.
Você era um homem querido e respeitado em nossa cidade, Rafael. A onda de comoção que se seguiu à sua morte foi comovente. Eu o conhecia há tempos, por meio de amigos comuns. Temos exatamente a mesma idade; nos anos 1990, tomamos várias cervejas e ouvimos o saudoso Jack cantar lá no Beco Bar. Meus pensamentos e orações se voltam agora para sua esposa e seus dois filhinhos; não tenho dúvida de que eles serão acolhidos e amparados pelos londrinenses. Nossa terra é solidária e compassiva.
Há um aspecto simbólico na sua tragédia, Rafael; um aspecto que não posso deixar de mencionar aqui. No momento do crime, você, pai de família e empresário, estava se dirigindo a uma igreja. São justamente os três grandes alvos dos bandidos que pretendem controlar nossa vida: a família, a igreja e a empresa. Atacam as empresas com a corrupção, a burocracia e o confisco. Atacam a igreja com a perseguição, a intimidação e o aparelhamento. Atacam a família com o ódio, a discórdia, a mentira e a ideologia. Querem destruir os grandes núcleos de resistência ao totalitarismo; querem destruí-los para governar o país, mesmo depois de arruiná-lo por tantos anos. Querem assassinar a família, a fé e a liberdade.
Mesmo desmascarados e aprisionados, eles querem nos matar. Mas Deus não vai permitir que isso aconteça; a vitória final será nossa, Rafael.
Até um dia.
Fale com o colunista: [email protected]


