Imagem ilustrativa da imagem Canção do homem que procura
| Foto: Shutterstock



Eu te procuro no vão das coisas,
no chão, no teto, na clepsidra.
Procuro-te - em beleza, em verdade -
procuro a metade silente da vida.

Sem descrição, retrato falado,
impressão digital,
procuro-te ao lado, no centro,
etc. e tal.

Te busco a esmo
no colo do vento.
Pergunto a mim mesmo
se há um alento.

Procuro-te
em faca sem cabo e sem lâmina,
animal sem alma, coração do cabal.

Claro-escuro, lusco-fusco
- busco.

Na taça de vinho seca
ou na borra do café
espreito aquele que é.

Na penumbra
vagando no espaço,
estou no teu encalço.

Em moeda sem cara ou coroa,
aposto fortuna de átomos.
(Mostra-mos.)

Mosca parada no gelo,
condenso-me a ponto
de ser o silêncio.
E mesmo assim te procuro
voando no augúrio
do derretimento.

Ainda retido no frio,
em tranqüilidade pânica,
te busco no ardil
da termodinâmica.

Bainha de nenhuma espada,
coldre de perdida arma,
sangue de veia sem forma,
reta sem pontos, plano sem retas,
organismo desprovido de carbono,
moral das pedras e quietude das bocas,
treva luzidia e tudo que se esconde,
onde?

Busco-te - é verdade - no espaço curvo
e na raiz quadrada de menos um.
Procuro-te no gozo mais fundo
e na luz que não viaja ao norte ou sul.
Na dor que não percebo,
e no buraco negro.
Na santidade cínica
e no público segredo.
(E já que estou nisto,
insisto.)

Vento e vaidade,
redundância da natureza.
Procuro-te
em verdade, em verdade,
na aparência.

Abismo de fúrias, Oceano Pacífico:
multiplico-o.
Mas não te reduzo à aritmética.
Minha busca é cética de tanta fé.
(Procuro aquele que é.)

Vaidade e vento
- oh vento dos ventos -
em atos, palavras,
omissões, pensamentos.
Palmilho, sedento.

(Procuro,
procura-me.
Procuro-te,
anulo-me.)

No chão das coisas,
no vão do teto,
na volta, na ida.
Procuro a verdade,
o caminho,
a vida.

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