Canção de Natanael
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
por Paulo Briguet 

Quando eu era bebê,
minha mãe me escondeu
debaixo das folhas da figueira
e rezou para que os soldados do rei
não ouvissem o meu choro fino.
O rei era o diabo.
Quando eu era jovem,
me apresentaram a um homem
e ele me disse ter ouvido meu choro
quando estive debaixo da figueira.
Descobri então que ele não era o homem
mas o Homem.
Segui esse Mestre.
Andei por estradas de pó,
e caminhos de pedra,
fui ferido por espinhos,
perseguido por cães,
molestado por ladrões,
desdenhado por escribas.
Passei fome e sede
e medo da morte.
Ao fim descobri que o Templo,
o verdadeiro Templo,
não era feito de pedra,
era feito de dor.
Era um pão ázimo,
um vinho amaríssimo,
um peixe só espinha,
um madeiro tosco
no alto da colina.
Depois do Calvário,
tivemos a nossa diáspora,
cada qual fugiu com sua dor
e seu medo e seu ódio.
Galo algum cantou pra mim.
Não sei como voltamos
a nos encontrar
a portas fechadas,
trêmulos de pânico e rancor.
Mas Ele apareceu.
Disse: Shalom.
Pediu pão, pediu peixe,
tomou água,
deu graças
e a minha vida foi muito mais difícil
do que seria se o soldado do rei
tivesse escutado meu choro
naquela manhã.
Viajei, falei em línguas,
anunciei a Boa Nova
e ao fim
arrancaram minha pele
para exibi-la ao povo.
Não importa. Sou eterno.
O Templo era o Homem.
Viver é doer. Meu nome é Natanael,
mas também me chamam Bartolomeu.
Hoje vivo à sombra desta figueira
que chamam Cruz.
Meu vizinho é o Bom Ladrão.
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