Imagem ilustrativa da imagem Boa noite, companheira
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Na festa de posse da Acil, saudei centenas de pessoas. Todas sorriram e me estenderam a mão. Todas, exceto uma. Era uma liderança política de esquerda. Já fui tratado de maneira protocolar por gente das mais diversas tendências políticas e religiosas, mas é a primeira vez que digo "boa noite" duas vezes, alto e bom som, e a outra pessoa vira as costas. Não posso dizer que fiquei magoado, pois já vi muitas grosserias na vida e esta não será a última; acho que, na verdade, senti pena.

Dar as costas! Talvez seja uma das atitudes mais vergonhosas que um ser humano pode ter na vida. Você pode evitar uma pessoa, pode não querer contato ou amizade com ela; pode até achar que ela merece ser presa ou perder o emprego. Mas dar-lhe as costas é demais; é negar ao outro a própria condição humana. Se todos seguissem a mesma lógica, o mundo acabaria em 48 horas, talvez menos. Para mim, umas definições de Inferno é o lugar em que todos negam cumprimento a todos — uma multidão de pobres-diabos com as mãos estendidas para o vazio.

Naquele instante lembrei-me de uma norma antiga do Partido Comunista Brasileiro (PCB), segundo a qual todo militante estava proibido de dirigir a palavra a supostos traidores da causa, tais como trotskistas ou antigos camaradas expulsos. Tenho um amigo, um querido amigo, que nos anos 70 deu as costas a um ex-companheiro em situação miserável. Arrependeu-se tanto daquele gesto que veio a dedicar sua vida à luta contra o comunismo.

Lembrei-me também de Antônio Ornellas, militante do PCB nos anos 20, que numa viagem a Moscou ousou contestar o líder bolchevique Lev Trotstky durante um congresso da Internacional Comunista. O pobre operário não sabia que era proibido contestar Trotsky naquele tempo. Assim que voltou para o Brasil, Ornellas foi covardemente humilhado e expulso pelos companheiros de partido. Um dos principais acusadores de Ornellas foi o militante e crítico literário Astrojildo Pereira. Irônico é que Astrojildo viria a passar por humilhação semelhante poucos anos depois; e Trotsky, antes incontestável, passou a ser visto como o principal inimigo da União Soviética e dos militantes comunistas no mundo inteiro.
Talvez o não cumprimento da líder esquerdista tenha sido motivado por minhas opiniões contra a ideologia de gênero e a favor do movimento Escola Sem Partido. Ao contrário do que dizem, os militantes esquerdistas não defendem o diálogo e a diversidade nas escolas. Quem defende a diversidade somos nós, cidadãos comuns. Eles querem é o monólogo, é o pensamento único — o pensamento deles. Querem a Escola com Partido Único. Os adversários, na visão da militância, têm mais é que ser banidos da face da Terra. Não merecem nem boa-noite.

É por isso que eu sou a favor da Escola sem Partido, da Universidade sem Partido, da Imprensa sem Partido, da Literatura sem Partido, da Filosofia sem Partido, da Infância sem Partido. Um dia, tenho esperança, chegaremos à Vida sem Partido. E então ninguém precisará dar as costas a ninguém.

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