Avenida Paraná Especial: Professor Vélez e a Lava Jato da Educação
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quarta-feira, 02 de janeiro de 2019
Paulo Briguet <br> Enviado Especial 

Ricardo Vélez-Rodríguez escolheu o Brasil para não morrer. Quando ele deixou definitivamente a Colômbia, lecionava na Universidade de Antioquia, onde era pró-reitor de pesquisa. Com o recrudescimento da guerra civil que devastava o país, começaram a aparecer os cadáveres no campus. Só em Antioquia, 18 professores universitários foram mortos no ano de 1987. Os assassinos não faziam acepção de pessoas: tombaram docentes conservadores, liberais e esquerdistas. Quando um grande amigo, o professor e teólogo Luis Fernando Vélez, foi assassinado em 17 de dezembro daquele ano fatídico, Ricardo percebeu que seria o próximo. O Brasil salvou-lhe a vida; agora, Ricardo quer ajudar a salvar o Brasil.
Mas houve outro fato decisivo para que Ricardo Vélez adotasse a nacionalidade brasileira. Em 1974, aos 31 anos de idade, ele ainda estava ligado a movimentos armados de extrema-esquerda na América Latina. Depois de se formar em Teologia pelo Seminário Conciliar de Bogotá, onde escreveu seu trabalho de conclusão de curso em latim (sobre o conceito de Pessoa em S. Tomás de Aquino), Ricardo tinha como destino uma temporada de estudos em Paris, sob os auspícios do educador marxista Paulo Freire. No entanto, de última hora, acabou tendo que ceder sua bolsa de estudos a um camarada argentino; seu destino, subitamente alterado, foi um mestrado em Filosofia na PUC do Rio de Janeiro.
TERÇA-FEIRA DE CARNAVAL
Quando Ricardo Vélez-Rodriguez chegou ao Brasil, no dia 5 de fevereiro de 1974, uma terça-feira de Carnaval, o seu maior sonho era fazer a revolução. Hospedou-se no Hotel Itajubá, no centro do Rio, e resolveu fazer um passeio a pé pelas redondezas. Na primeira esquina, deparou com algo que jamais tinha visto em seus 31 anos de vida: a algazarra dos foliões do tradicional bloco Bafo de Onça. Surpreso com o clima delirante que viu nas ruas, pensou: "Nesse país a revolução nunca vai dar certo!" Naquele instante começava a morrer um guerrilheiro e nascer um brasileiro.
Para Ricardo, no entanto, a principal surpresa foi conhecer o seu orientador de mestrado: o professor Antonio Paim. O intelectual baiano, que havia sido dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), desiludira-se com o marxismo após visitar a União Soviética e conhecer, em primeira mão, os crimes de Stálin revelados pelo Relatório Kruschev, em 1956. Quando Vélez encontrou Paim, este já era um liberal convicto, no sentido clássico do termo. Logo de cara exigiu que o seu novo pupilo fizesse uma resenha de "Ensaio sobre o Entendimento Humano", de John Locke. "Quem este baiano reaça pensa que é?", irritou-se o jovem colombiano. Mas leu o livro e fez a resenha. Nas semanas seguintes, Paim valeu-se da mesma estratégia para lhe apresentar obras de autores clássicos, conservadores e liberais. Durante os primeiros meses de sua qualificação para o mestrado, Ricardo Vélez mergulhou em Aristóteles, Platão, Kant, Hume, Montesquieu, Adam Smith e outros. Também foi apresentado aos principais nomes do pensamento luso-brasileiro.
E foi assim que Ricardo Vélez abandonou a revolução das armas, trocando-a pelas armas do conhecimento. Antonio Paim tornou-se, muito mais do que um orientador de mestrado, o seu mestre orientador, amigo e parceiro pela vida inteira. Publicaram vários livros e também criaram um excelente "Curso de Humanidades", juntamente com o saudoso Leonardo Prota, ex-docente da UEL e presidente da Academia de Letras de Londrina. O mergulho de Ricardo Vélez na realidade brasileira foi de natureza intelectual e afetiva: nos anos 90, quando se naturalizou brasileiro, já amava o País como um filho e o conhecia como um mestre.
Depois daquele encontro decisivo com Antônio Paim, Ricardo Vélez tornou-se um estudioso do pensamento e da realidade brasileira. Analisou como poucos o fenômeno do patrimonialismo, no qual uma elite política se julga proprietária da máquina pública e, por fim, de toda a sociedade. Sua obra também contempla a vitória da sociedade colombiana contra o narcotráfico e a guerrilha, em que a educação teve papel fundamental. Sob a liderança do ex-presidente Alvaro Uribe, a Colômbia reconquistou áreas que se encontravam sob o domínio dos criminosos e instalou, nos lugares mais vulneráveis, parques-bibliotecas que uniram a comunidade contra o banditismo. O conhecimento e a ordem venceram a ignorância e o terror; precisamos urgentemente fazer o mesmo no Brasil.
TRABALHOS DE HÉRCULES
Em seu ensaio "Um caso típico de voo de galinha", Vélez faz uma impressionante crítica das políticas públicas em educação no Brasil, abordando o período de 1964 a 2014. Tachado de "medieval" e "reacionário" por alguns próceres da educação globalista, Vélez, ao contrário, revela-se em suas obras um pensador independente e visionário. Por exemplo, ele não se furta a apontar erros e inconsistências no sistema educacional do regime militar, tais como o crescimento desregrado do ensino superior de cunho profissionalizante. Escreve o autor, com argúcia: "A prática do ensino, coordenada pelos burocratas do MEC e cada vez mais desligada da realidade, terminou sendo fechada no que tenho denominado de funil da insensatez, que consiste na seguinte hierarquização: o ensino básico prepara o secundário, que prepara para a graduação universitária que, junto com a pós-graduação, deveria preparar para o mercado de trabalho. Só que, como o sistema foi pensado à margem do setor produtivo, nem sequer com a sua profissionalizante. Isso, evidentemente, traduziu-se em desemprego profissional".
Erros e inconsistências continuaram a ser cometidos a partir da chamada Nova República, e desembocaram no verdadeiro desastre das políticas educacionais das gestões petistas. O resultado é sintetizado por Vélez em dez pontos que descrevem a situação tenebrosa da educação brasileira nos últimos anos: "1) Queda do setor de ensino primário nas avaliações internacionais; 2) Queda do setor de ensino secundário nas avaliações internacionais; 3) Queda do setor de ensino superior nas avaliações internacionais; 4) Critérios dúbios adotados pelo Ministério da Educação na avaliação do sistema de ensino brasileiro nos seus três níveis; 5) Pano de fundo altamente ideológico e radical nas reformas educacionais petistas, no contexto da denominada revolução cultural de inspiração gramsciana; 6) Inépcia do INEP na gestão dos vestibulares; 7) Aparelhamento, pelo PT, dos institutos de pesquisa do Estado em relação ao desenvolvimento econômico e social (IPEA, IBGE); 8) Inadequada formulação do programa Ciência Sem Fronteiras, para enviar ao exterior 100 mil estudantes brasileiros de nível superior, um caso gritante de turismo acadêmico; 9) Preconceitos do PT em face do setor privado no terreno educacional; 10) Despreparo do governo para lidar com o ensino digital de grandes proporções".
Se somarmos a esses dez itens o vergonhoso problema do analfabetismo funcional que chega a atingir 50% da população universitária! e os malefícios da burocracia governamental, descobriremos que o ex-revolucionário Ricardo Vélez Rodrigues tem diante de si um desafio comparável aos doze trabalhos de Hércules. Em seu discurso de posse no MEC, no dia 2, o novo ministro delineou algumas das linhas mestras do seu trabalho: o primeiro é colocar a burocracia a serviço do cidadão, e não o cidadão a serviço da burocracia; o segundo é eliminar sistematicamente os entraves ideológicos e o caráter centralizador nas políticas públicas de educação ("Mais Brasil, menos Brasília"); o terceiro é enfrentar com todas as forças o problema mais grave da educação brasileira: o analfabetismo. Pelo que já demonstrou até aqui, o ministro Ricardo Vélez pretende liderar um processo de transformações que poderíamos chamar de "Lava Jato da Educação". Se na Lava Jato da Justiça o principal inimigo era a corrupção, na Lava Jato do MEC o principal alvo será a ignorância. "Renovaremos a educação em bases liberal-conservadoras, com o intuito de preservar os nossos valores tradicionais de defesa da família, da liberdade religiosa, do patriotismo", afirma o novo ministro. "Vamos limpar as nossas escolas do vírus que terminou sendo disseminado por militantes radicais. Faremos isso com crítica intelectual e com abertura ao universo da cultura ocidental, berço de nossa civilização".
Toda grande mídia tratou a nomeação de Ricardo Vélez para o Ministério como uma surpresa, quase um acinte. Nem sabiam que ele morava e trabalhava em Londrina, não em Juiz de Fora, como erroneamente publicaram alguns veículos. Tampouco o nome de Vélez foi imposto pela "bancada evangélica" ou pelos "militares"; na verdade, ganhou força após a indicação de um amigo e admirador, o filósofo Olavo de Carvalho, pelas redes sociais. Em texto publicado há 22 anos, Olavo parecia antecipar o desafio que se impõe a Vélez e sua equipe: "Tarefa que é, em essência, a de romper o círculo de limitações e constrangimentos que o discurso ideológico tem imposto às inteligências deste país, a de vincular a nossa cultura às correntes milenares e mais altas da vida espiritual no mundo, a fazer em suma com que o Brasil, em vez de se olhar somente no espelho estreito da modernidade, imaginando que quatro séculos são a história inteira do mundo, consiga se enxergar na escala do drama humano ante o universo e a eternidade. Tarefa que é, no seu mais elevado e ambicioso intuito, a de remover os obstáculos mentais que hoje impedem que a cultura brasileira receba uma inspiração mais forte do espírito divino e possa florescer como um dom magnífico a toda a humanidade".
A história tem dessas ironias. O ex-guerrilheiro Ricardo Vélez agora é ministro e tem a tarefa de fazer a revolução conservadora no Brasil.


