Imagem ilustrativa da imagem Avenida Paraná Especial: O dia em que Brasília virou Brasil
| Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil



GRANJA DO TORTO

Chegou a hora, Jair. Dê aqui o seu braço, vamos até o carro, que o povo espera. Você parecia triste no momento em que eu vim chamá-lo; talvez estivesse pensando em seu pai. Eu entendo, isso é saudade. Você queria muito que o Seu Geraldo estivesse aqui. Lembro-me do dia em que ele falou: "Você não vai se candidatar a vereador coisa nenhuma. Vai seguir a carreira militar, ser general do Exército e depois presidente da República!" Sem querer, ele acertou. Embora nunca tenha chegado ao generalato, hoje você se tornará o comandante não apenas das Forças Armadas, mas do País. Geraldo ficaria orgulhoso. Sorria, Jair.

Nesta granja moraram alguns presidentes. O general João Batista gostava muito do lugar, do contato com a natureza, da proximidade com os cavalos, da paz campestre. Corre a lenda de que o nome da granja se deve a um cunhado do João Goulart que tinha um olho de vidro e era todo torto, mas não é verdade. O nome faz referência ao ribeirão que passa por perto, e existia muito antes da cidade. É como se ele estivesse mostrando que a nossa história nunca seria uma linha reta, mas cheia de percalços e desvios. Agora vamos, Jair. O ribeirão Torto fará as vezes de Ipiranga.

CATEDRAL DE BRASÍLIA

Olhe o povo nas ruas, Jair. Todos vieram só para ver você. Nos últimos anos, eles saíram às ruas vestidos de verde-amarelo, mas por outra razão: não era festa, era protesto. Sabe o que eu estava pensando? O seu sobrenome tem o mesmo número de letras da palavra esperança. É por isso que as pessoas estão aqui. Veja o tamanho da sua responsabilidade, Jair! Portanto, nunca se esqueça que esperança tem o número de letras de desespero. Sua missão, capitão, é não deixar que ela se transforme nele.

Confesso que nunca me senti bem aqui na capital. Essas ruas com nomes impessoais, essa ausência de esquinas, esses paquidermes de concreto e vidro, esse plano-piloto dos sonhos socialistas, nada disso me agrada muito, sabe? Mas hoje a cidade parece outra, como se as ruas tivessem nomes de verdade, como se todos se encontrassem numa imensa esquina, como se o concreto e vidro fossem substituídos pelas pessoas, como se o plano-piloto levantasse voo. As pessoas estão acenando, Jair. Há muito tempo não faziam isso... Você não tem o direito de decepcioná-las.
Aí está a Catedral. Se você olhar com atenção, verá dois homens que eu conheço bem à porta da igreja. Ambos se chamam José: o Bonifácio me fundou, o Anchieta me educou. Eles têm os olhos postos em você, presidente. Junto aos Josés, há Maria: Nossa Senhora Aparecida, minha padroeira, a quem a Catedral é dedicada. Eu e você sabemos que Nossa Senhora ajudou a salvar sua vida naquele hospital. Neste momento, Jair, milhões de pessoas, de todas as crenças, rezam conosco. Agradeça a essa senhora de pele negra e ao seu Filho. Agradeça também ao Patriarca e ao Santo. E quando estiver perto do altar, antes de ir para a luta, peça a bênção de Deus. Ele nos protegerá dos perigos. "Corações ao alto!"

CÂMARA DOS DEPUTADOS

Os presidentes da Câmara e do Senado te esperam, Jair. Chegamos à Casa onde você esteve por tantos anos e quase sempre travou batalhas solitárias. Foi desprezado, ridicularizado, perseguido, processado, xingado - até cuspido. Na visão dos inimigos, você nunca foi parlamentar, mas para lamentar. Hoje, muitos daqueles que vaiaram seus discursos ou ignoraram seus projetos estão assistindo a uma cena que jamais pensaram ser possível. Enquanto dentro da Casa ignoravam suas palavras e ideias, fora dela havia um vasto, um imenso, um inimaginável público a entendê-las e aplaudi-las. Porque você falou a língua do povo, e o povo se sentiu menos só.

Ao lado dos que hoje o recebem e lhe prestam homenagens, estão três homens que um dia também lutaram, perderam e foram vaiados neste mesmo lugar: Roberto Campos, Clodovil e Dr. Enéas. O tempo mostrou que eles estavam certos e os escarnecedores, errados. O dia também é deles. Enquanto o velho trio contemplava a cena histórica, você jurou "Manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil."

Em seguida, você assinou o termo de posse. Só eu sei, mas a caneta com que você escreveu seu nome não levava apenas tinta; tinha uma gota de sangue dos brasileiros que deram suas vidas pela liberdade. Ali bem perto, dois eternos jovens observavam a cena: o tenente Alberto Mendes Júnior e o soldado Mário Kozel Filho, heróis que morreram na luta contra a pior das ditaduras. Joaquim Nabuco, Ruy Barbosa e Carlos Lacerda, três dos maiores oradores da nossa história, também o escutavam, enquanto você fazia o seu primeiro discurso como presidente empossado. Lembre-se de todos eles - Alberto, Mário, Joaquim, Ruy, Carlos - quando estiver na cadeira presidencial, Jair.

Eu notei que, quando soaram os primeiros acordes do Hino, seus olhos se encheram de lágrimas. Decerto você se lembrou das manhãs de ordem unida na escola em Eldorado Paulista; dos duros primeiros dias na Academia de Agulhas Negras, quando você lutava para decifrar a aterrorizante geometria descritiva; do dia em que salvou um homem que se afogava; do acidente de paraquedas, quando você quebrou os dois braços e as duas pernas ao se chocar contra um prédio; da sessão em que foi inocentado pelo Tribunal Superior Militar; da primeira eleição, quando fazia panfletos na garagem de casa; dos minutos de agonia em que era levado para o hospital em Juiz de Fora; e do belo domingo em que se tornou o presidente mais votado na história do País.

Por um momento, pensei ter visto lado a lado, no meio da multidão, Francisco Manuel da Silva e Osório Duque Estrada, os autores do Hino, que jamais se conheceram em vida: "Mas se ergues da Justiça a clava forte/ Verás que um filho teu não foge à luta/ Nem teme quem te adora a própria morte". Em 1822, Pedro gritou: "Independência ou morte!" Mas quase ninguém se lembra que esse grito foi inspirado alguns dias antes por uma mulher corajosa. Não fosse a carta que Leopoldina escreveu para o marido, com o apoio de José Bonifácio, a declaração da Independência não existiria. A Imperatriz também está aqui.
"Independência ou morte!" Um dia antes da Independência, Jair, você conheceu a face da morte. Agora, ouça o brado retumbante que um dia foi ouvido às margens do Ipiranga, graças a uma mulher de espírito.

PALÁCIO DO PLANALTO

Tornado comandante-em-chefe das Forças Armadas, você passa em revista as tropas da Marinha, do Exército e da Aeronáutica. Mais uma vez, ouve-se o Hino Nacional, em meio aos clamores do povo. Ouvem-se também as 21 salvas de canhões, uma tradição universal de respeito, um sinal de paz com os instrumentos da guerra. Antigamente, os barcos militares, quando chegavam a um porto estrangeiro em missão de paz, efetuavam o disparo das salvas de canhões em direção ao mar, para demonstrar que não tinham intenções hostis. A salva de 21 tiros - sendo 21 um múltiplo de sete, o número bíblico da perfeição - representa o eterno anseio da humanidade por entendimento, justiça e perdão.

Eis que acontece o inimaginável: você sobe a rampa do Planalto. Há alguns anos, se alguém dissesse que isso iria acontecer - um capitão do Exército subir a rampa do palácio presidencial -, seria chamado de louco. E, no entanto, o impossível não apenas acontece, mas é decisivo na História: um pastor franzino venceu o gigante e libertou o povo hebreu, o Messias era filho de uma virgem e nasceu dentro de um estábulo, o maior filósofo de todos os tempos nunca escreveu um livro, o maior poeta que já existiu era cego, o maior autor de sinfonias era surdo, e assim por diante. Por isso, a subida da rampa pode ter surpreendido a todos, mas não àquelas três mulheres que observavam a cena: uma índia, uma negra, uma europeia. Três mães brasileiras, falantes da língua portuguesa, testemunhas da nossa história tantas vezes paradoxal. Eu as vi, Jair, enquanto você subia a rampa.

E quem poderia dizer que você estaria aqui hoje, no 197º ano da Independência, 130º ano da República, discursando para a multidão no Parlatório, vestido com a faixa presidencial, olhando para esse mar verde-amarelo? Nem mesmo o Padre Vieira ou o Bandarra ousariam fazer semelhante profecia. O mesmo se pode dizer de seu ministério. Quem seria capaz de antever o juiz da Lava Jato como ministro da Justiça, o maior conhecedor do pensamento luso-brasileiro como ministro da Educação, um liberal de Chicago como ministro da Economia de um militar "estatista", um ministro antiglobalista e patriota, chamado pelos inimigos de "cavaleiro templário, no Itamaraty? A verdade histórica às vezes é inverossímil; para expressá-la, necessário se faz usar a imaginação. Portanto, Jair, não se espante ao descobrir que o fotógrafo responsável pela imagem oficial do seu ministério é esse senhor de longas barbas e olhar professoral, também conhecido como D. Pedro II.

PALÁCIO DO ITAMARATY

Agora é com você, Jair. Preciso ir embora. Deixo você neste belo palácio, para conversar com os líderes do mundo. Antes de me despedir, porém, gostaria que você olhasse para aqueles quatro homens. Seus nomes são Mário, Gilberto, Otto e Miguel. Começamos falando de um ribeirão - o Torto - e de um córrego - o do Ipiranga -; terminaremos falando desses rios caudalosos que convergem para mostrar a nossa face ao mundo: a filosofia de Mário Ferreira dos Santos, a sociologia de Gilberto Freyre, a literatura de Otto Maria Carpeaux, o direito de Miguel Reale. Eles se encontram com os outros grandes nomes da cultura nacional: Machado, Euclides, Cecília, Graciliano, Bandeira, Drummond, Heitor, Josué, Ariano, Braga, Nelson, Corção, Tolentino, Adélia... É como me disse o professor Olavo de Carvalho: "Há de conservar-se aquilo que, do nosso presente e do nosso passado, tenha para os homens do futuro o valor de uma mensagem salvadora, de um sinal do sentido da vida e da força com que a inteligência humana salta por cima das condições locais e se integra na compreensão do universo".
Você será capaz de dar esse salto, Jair? Não sei, mas tenho esperança. Ah, esqueci de me apresentar. Meu nome é Brasil.

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