AVENIDA PARANÁ
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de julho de 2016
por Paulo Briguet 

Eu podia estar roubando
Por indicação de um casal de amigos, comecei a assistir ao seriado "Downton Abbey", e confesso que já estou ficando viciado nas aventuras da família aristocrática inglesa do início do século 20. No segundo episódio, o protagonista Robert Crawley diz uma frase antológica ao mordomo: "Todos nós temos capítulos em nossas vidas que não gostaríamos de ver publicados". Achei a fala tão boa que parei o vídeo para anotá-la no meu caderninho.
Como dizem aqueles alguns vendedores ambulantes e pedintes de rua, eu podia estar roubando, eu podia estar matando, mas estou só aqui publicando as minhas crônicas na Folha de Londrina. Ocorre que o cronista diário não escapa de publicar alguns capítulos da própria vida que outros prefeririam esconder.
Se eu não encontrasse determinadas pessoas e lesse determinados livros em determinados momentos, talvez hoje eu estivesse, sei lá, defendendo a volta de Dilma ao poder ou fazendo propaganda da ideologia de gênero nas escolas. Talvez eu fosse um mendigo ou um poeta marginal. Talvez eu estivesse sendo preso pela Lava Jato ou, o que é pior, sendo solto por algum juiz do STF.
Lembro que, em 1998, eu lia escondido alguns autores conservadores no computador do sindicato em que trabalhava. Quando algum companheiro se aproximava, eu escondia logo a página que estava lendo. Poderia ter acontecido a seguinte cena:
Que é isso, Briguet, lendo Olavo de Carvalho?!
Olavo de Carvalho? Não, imagine! Só estava vendo umas fotos da Gretchen
Ah, bom.
Não fossem essas leituras clandestinas Olavo de Carvalho, Bruno Tolentino, Nelson Rodrigues, Paulo Francis, Roberto Campos, Santo Agostinho, João Paulo II, Evangelho de São João , quem sabe eu estivesse até hoje filiado ao PT, ao PSOL, do PCdoB ou coisa semelhante.
Como observa o crítico Antonio Cândido em seu ensaio "A vida ao rés-do-chão", a crônica é um gênero literário menor. Jamais um cronista ganhará um Nobel de Literatura. Não é por acaso que o nome Paulo significa "pequeno".
Eu me daria por contente se pudesse, um dia, escrever uma crônica tão boa quanto um samba do Adoniran Barbosa. Poderia ser "Saudosa Maloca", Trem das Onze" ou "Vide Verso Meu Endereço": "Venho por meio destas mal-traçadas linhas/ Comunicar-lhe que fiz um samba pra você/ No qual quero expressar toda minha gratidão
"
O que me faz feliz é saber que ainda tenho entre meus sete leitores figuras tão queridas quanto a professora Valderes Pereira Penteado, 84 anos, que todos os dias se levanta, abre o jornal e vem direto ler minha coluna.
Eu podia estar roubando, eu podia estar matando, eu podia estar defendendo o PT mas estou aqui escrevendo para a Dona Valderes.
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