Imagem ilustrativa da imagem AVENIDA PARANÁ
| Foto: Morning Sun/Edward Hopper



Ninguém ama a terça-feira
Terça-feira é o mais esquecido dos dias. Parece que nada acontece nela, nem mesmo o tempo. Ninguém marca nenhum compromisso importante para a terça-feira. Ninguém escolheria nascer ou morrer numa terça-feira. Se por acaso o aniversário de alguém cai numa terça, a festa é automaticamente transferida para a sexta ou o sábado mais próximos. Coitadinha, vocês não têm pena dela?

Eu diria que terça-feira é o dia em que a história parou — tanto a história universal como as nossas pequenas histórias individuais. Terças pertencem ao mundo das trivialidades cotidianas. Pobre terça, abandonada a si mesma!

Ninguém ama a terça, ninguém odeia a terça. As pessoas e os gatos não gostam das segundas-feiras, mas as terças são apenas desprezadas. A quarta-feira de cinzas ganhou um belíssimo poema de T. S. Eliot; a terça não ganha nem uma letra de funk. Aprendi a amar a quinta-feira desde os tempos em que fazíamos a Quinta Sem-Lei; agora é o dia do Clube dos Reaças. A sexta-feira é o dia mais amado pelos brasileiros, por sua alma de fim de semana. O sábado, dia sagrado dos judeus e dos adventistas do sétimo dia, é o dia em que Deus descansou e contemplou a Criação. E o domingo? O próprio nome já diz: é o Dia do Senhor, da missa, da ressurreição! Virou até verbo: a triste terça-feira jamais conseguirá endomingar ninguém.

Não nos dignamos a chamá-la de terceira-feira; preferimos a corruptela. Quando penso na terça, penso numa banda punk londrinense dos anos 90, chamada Nem Nome Tem. É o único dia com apelido. Nem mesmo os apreciadores de música ruim, que possuem aqueles sons automotivos insuportáveis, gostam de usar seus terríveis equipamentos nesse dia. As noites de terça são as mais silenciosas. Por volta das três da manhã de uma terça, é possível ouvir a queda de um alfinete na Avenida Madre Leônia.

Outro dia vi na internet uma degustação de água. Estou falando sério: depois da degustação de vinhos e de cervejas, tem gente degustando água. A terça-feira, em geral, é tão insossa quanto tal evento. Terça é a água dos dias, água como ensinavam os livros de escola do meu tempo: insípida, incolor, inodora.
Que eu me lembre, o único acontecimento histórico importante ocorrido numa terça-feira foi o atentado às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001. Mas ninguém se lembra disso. A data foi, digamos, "desterceirizada". Acredito mesmo que os terroristas escolheram esse dia por sua aparente inocuidade. Nem a conversa entre Lula e Dilma aconteceu numa terça; eu já conferi, foi numa quarta. E Sérgio Moro dificilmente escolherá uma terça para fazer a prisão que o Brasil mais espera.

Se a terça fosse uma cor, seria cinza. Se fosse uma comida, seria alface. Se fosse uma música, seria de espera telefônica. Se fosse um gênero literário, não seria o romance, nem o conto, nem a novela, nem a poesia, nem o teatro, nem o ensaio. Seria a crônica.

Por isso, vocês sete podem ficar tranquilos: dificilmente o fim do mundo cairá hoje.



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