Imagem ilustrativa da imagem AVENIDA PARANÁ
| Foto: Paulo Briguet



Minha vida é brincar
1. Era uma vez um escritor chamado Gabriel García Márquez (1927-2014) que sempre tinha um vaso de flores amarelas no seu gabinete de trabalho. "Onde há flores amarelas, nada de ruim pode acontecer", justificava-se. García Márquez contava que sua agente literária foi atropelada quando levava os originais de um romance — única cópia existente — para a editora. A agente se salvou e o livro quase se perdeu, mas afinal foi recuperado. Graças a isso pudemos conhecer "Cem Anos de Solidão". Coisas de flores amarelas.

2. Ontem eu ganhei uma rosa amarela. Imerso em preocupações com meu próximo livro — que não será nenhum "Cem Anos de Solidão", mas, espero, apenas um trabalho honesto —, fui até a Gruta Mãe da Graça, onde uma moça chamada Patrícia tem visões de Nossa Senhora há 20 anos. Em meu egoísmo de autor, queria que a Mãe de Jesus me desse algum conselho sobre o livro. E ela o fez quando, na saída, recebi das mãos de outra Patrícia a lindíssima flor que vocês sete podem ver aí na foto. O estilo de Deus é a sutileza.

3. Ao receber a rosa, lembrei-me do poema de Ivan Junqueira (1934-2014), a quem entrevistei anos atrás: "Atrás daquela montanha/ tem uma flor amarela;/ dentro da flor amarela,/ o menino que você era./ Porém, se atrás daquela/ montanha não houver/ a tal flor amarela,/ o importante é acreditar/ que atrás de outra montanha/ tenha uma flor amarela/ com o menino que você era/ guardado dentro dela".

4. Com a rosa nas mãos, pensei também no poeta alemão Rainer Maria Rilke (1875-1926). Há exatamente 80 anos, já doente de leucemia, Rilke foi ao jardim para colher rosas e oferecê-las a uma jovem admiradora egípcia. Feriu-se na mão. O ferimento agravou sua doença e ele veio a falecer em 30 de novembro de 1926. Deixou, porém, um último poema: "Rosa, ó pura contradição, prazer de ser o sono de ninguém sob tantas pálpebras".

5. No final da tarde, recebi outra rosa, esta vermelha, de uma simpática senhora da vizinhança. Ele acabava de sair do Santuário e disse: "Paulo, esta é a rosa de Madre Leônia. Ofereça para a Rosângela". É o que vou fazer agora — e já volto.

6. Já ofereci a rosa à minha amada, cujo nome é a união de Rosa e Anjo. Ela me informou que o presente era típico Santa Teresinha do Menino Jesus — a doutora da Igreja conhecida por conceder graças oferecendo rosas.

7. Na Gruta Mãe da Graça, não rezei apenas por meu livro. Vocês sete não pensem que sou tão egoísta assim! Pedi também pela conversão de uma pessoa muito querida e pela saúde da Rosângela e do Pedro. Ontem, depois de passar o dia inteiro com a amada priminha Liz, o Pedro queria que a mãe brincasse com ele à noite. "Mas você já brincou o dia inteiro, Pedro!", disse a Rô. "Mamãe, minha vida é brincar", foi a resposta. Parabéns, meu filho, você acaba de dar título à crônica do papai. Você é o menino da flor amarela.

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