Imagem ilustrativa da imagem AVENIDA PARANÁ
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Salvai da morte a criança
"De vez em quando, porém, somos sacudidos em nossa complacência e nos sentimos na presença de algo muito mais significante do que os interesses e desejos atuais. Sentimos a veracidade de algo precioso e misterioso que se aproxima de nós, alegando, de certo modo, não ser deste mundo. Essa é a experiência da beleza." (Roger Scruton)

Nossa vida cotidiana é marcada por preocupações imediatas, que nos escravizam quase todo o tempo. Mas em certos instantes — como observa o filósofo inglês Roger Scruton — um clarão da eternidade invade a algaravia rotineira. São os pontos luminosos da existência humana.

No ano de 1976, se alguém passasse por volta das 11 horas pela estrada que ladeava um sítio de Guaravera, na zona rural de Londrina, veria uma pequena bandeira amarela deslocando-se em meio à plantação de soja. Era o menino Cássio Caberlin levando o almoço para o pai na lavoura. A bandeirinha tinha uma razão para estar lá: como Cássio ainda era pequeno, evitava-se que o menino fosse atropelado por algum trator. Ponto luminoso

Cássio morreu nesta semana. Trabalhava há 34 anos numa tradicional empresa de origem londrinense. Era um homem muito querido por todos que o conheciam, e eu soube disso quando o entrevistei em Cuiabá, em 2009, para um livro que escrevi na época. Aquela imagem da bandeira na plantação — a preservar a vida e o futuro de um menino sonhador — é um desses pontos luminosos que a arte às vezes consegue recriar. As cinzas de Cássio Caberlin foram espalhadas em dois rios que ele amou: o Cuiabá e o Paraná. Quando atravessar um desses rios, lembrarei do menino da bandeira amarela.

Há exatos 15 anos, eu estava almoçando com amigos quando recebi um telefonema terrível. Do outro lado da linha, alguém disse que Amanda e Lucas, os dois filhos de minha amiga Ana Paula, haviam sido atropelados na Avenida Inglaterra, tendo morte imediata. Até hoje não consigo escrever essas palavras e esses nomes sem sentir o meu coração menor.
Não consigo jamais passar pela Avenida Inglaterra sem me lembrar de Amanda e Lucas, que hoje seriam adultos. Ao pensar neles, eu penso também na multidão de crianças que, por razões diferentes, mas sempre dolorosas, tiveram seus caminhos interrompidos. Sempre penso em um detalhe: Amanda e Lucas haviam ido comprar balas. Ah, como eu queria ter uma máquina do tempo para lhes levar as balas antes que eles saíssem de casa!

Esse foi um ponto de escuridão; o ponto luminoso aconteceu quando encontrei Ana Paula, a mãe de Amanda e Lucas, em 2011, trabalhando no Hospital do Câncer quando minha mãe lá estava internada. Ana ajudava as pessoas que sofriam — e sorriu para mim, como sorri até hoje.

E então, lendo as notícias na última semana, reconstituí mentalmente o ato de heroísmo do pai que salvou a menina de 17 dias antes de ser engolido pelas chamas, no terrível acidente da BR-277, no litoral do Paraná. Um homem salvou da morte uma criança — e isso me faz acreditar que existe, além deste mundo, um lugar constituído apenas de luz.

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