AVENIDA PARANÁ
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 04 de julho de 2016
por Paulo Briguet 
O menino que fugiu de Hitler
Na sexta-feira passada perdemos um herói londrinense um daqueles personagens que nos fazem sentir orgulho de pertencer à espécie humana. Seu nome era Bernardo Marx. Tinha 90 anos e agora está nos braços de Deus.
Bernardo nasceu em Colônia, na Alemanha, em 20 de abril de 1926. Até os nove anos de idade, levava uma vida normal com a família. Em 1933, Hitler chegou ao poder. No ano seguinte, o pai de Bernardo, Jakob, perdeu o emprego e ficou impedido de trabalhar, por ser filho de um judeu. Embora convertidos ao catolicismo, os Marx eram considerados uma família judia pelas leis do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães.
Se permanecessem na Alemanha, os Marx teriam como provável destino a morte em um campo de concentração. Quem os salvou foi o padre José Herions, um palotino alemão que lhes ofereceu a possibilidade de emigrar para o Brasil. Os Marx desembarcaram no porto de Santos no dia 12 de junho de 1935, dois dias depois das irmãs fundadoras do Colégio Mãe de Deus.
Na bagagem, os Marx traziam um crucifixo, um quadro da Sagrada Família e uma boneca. O crucifixo está hoje na Capela do Vale Azul, em Londrina. O quadro, de 1920, está no quarto de Bernardo Marx. E a boneca trazia dentro uma quantidade de dinheiro suficiente para a família não passar fome no Brasil os nazistas permitiam que os emigrantes levassem apenas cinco marcos, sob pena de fuzilamento.
Os primeiros tempos não foram fáceis. Discriminados na Alemanha por ser considerados judeus, os Marx foram discriminados no Brasil por ser considerados alemães. Mas nunca se fizeram de vítimas. Com muito sacrifício e dedicação, construíram uma vida simples e digna em terras brasileiras.
Em Londrina, Bernardo fez parte da primeira turma de alunos do Colégio Mãe de Deus, onde estudou por dois anos. Desde pequeno, ajudou os pais na produção de leite, carne e derivados. O trabalho sempre foi a sua marca.
Em 1950, o jovem Bernardo decidiu abraçar a vida religiosa e se tornou monge em Itaporanga. Problemas de saúde o impediram de seguir a carreira eclesiástica; mesmo assim, jamais abandonou a fé. Casou-se com Florinda Salvador e juntos viveram por 45 anos, até o falecimento dela, em 2003. Ajudou a construir diversas capelas em Londrina e pertencia a grupos de oração da Igreja Católica. Quando o entrevistei, em 2015, ele se lembrava claramente da multidão de 30 mil católicos alemães cantando diante da Catedral de Colônia: "Großer Gott, wir loben Dich" (Grande Deus, nós Te louvamos).
O menino que fugiu de Hitler morreu com o Rosário nas mãos. Nas últimas semanas, pediu todos os dias para receber a comunhão. A filha Maria Cecília, que cuidou de Bernardo até o fim, consola-se imaginando o abraço entre ele e a neta Fernanda, que partiu precocemente em 2011.
No ano passado, Bernardo Marx lançou o livro "História da Minha Vida", que traz na capa uma foto da Catedral de Colônia e na contracapa a foto da Catedral de Londrina. As imagens não foram escolhidas por acaso: a vida de Bernardo Marx é uma catedral de fé, esperança e amor.
Fale com o colunista: [email protected]


